A urgência na escrita hoje: o teatro em desafio
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Abril 23, 2015

Lembro-me de uma das primeiras aulas que tive na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), assim que ingressei no curso de Direção Teatral em 2006: uma de minhas professoras, falando sobre a especificidade da arte teatral, partiu do pressuposto da copresença (entre ator e espectador) e chegou num propósito um pouco mais insólito do que o simples compartilhar de uma obra artística. Perguntou ela: quer experiência mais anacrônica e, justamente por isso, quer experiência mais revolucionária que a do ato teatral, que reúne num mesmo espaço-tempo um dado número de pessoas em torno de uma mesma questão? E depois ela afirmou: o teatro é puro terrorismo.

Como artista de teatro que transita entre as ditas “funções” (atuação, direção, dramaturgia, produção...), o teatro foi se tornando, para mim, um ato de terrorismo. Entenda-se aqui “terrorismo” como uma qualidade que dá ao gesto certa violência capaz de desarranjar aquilo que jaz instituído; gesto incapaz de ser totalmente descrito e reconhecido; gesto capaz de desfiar expor e denunciar o modo pelo qual as coisas se tornaram aquilo que elas são.

Quando em 2011 me vi tragado pela palavra-universo dramaturgia, eu estava em salas de ensaio criando dois espetáculos do Teatro Inominável: Como cavalgar um dragão e Sinfonia Sonho. No primeiro, que dirigi junto à Flávia Naves e assinei a dramaturgia (criada em processo colaborativo com cinco atores), nos dispomos a um propósito que, ainda hoje, considero ter sido muito revelador: a cena, ao invés de um retrato do real, apostou numa composição inventada para tentar dar conta daquilo que, em vida, eu não havia conseguido realizar. Em Dragão apresentamos o encontro de cinco amigos após o suicídio de uma amiga em comum. A peça desenhava uma situação que, eu acreditava, precisava ter acontecido comigo e meus amigos após o suicídio de uma amiga nossa. Em paralelo, com Sinfonia Sonho, dirigindo e escrevendo (também em processo junto a nove atores), vimos surgir uma composição cênico-dramatúrgica que denunciava a nossa realidade ao colocar um punhado de questões familiares na tribuna, de forma que as tortuosidades de nossa sociedade não pudessem encontrar em nossa cena um mero espelho que as acomodassem, mas ao contrário, uma mesa de dissecação, um espaço instaurador de dúvidas e abridor de outros pontos de vista sobre o real e suas engrenagens.

Hoje eu reconheço que aquilo que costura estas duas experiências se trata menos de uma afirmação e muito mais de uma simples e tenaz pergunta: e daí? E daí que isso importa? Com estas duas criações, o que eu vivenciei foi o fazer-surgir de poéticas cênico-dramatúrgicas, mas, sobretudo, também o fazer-instaurar de outras realidades possíveis ao real. E eis a potência do gesto teatral enquanto terrorismo: ele é um gesto que afirma e que faz acontecer, que realiza e se impõe tanto aos seus criadores como aos espectadores. Afinal, reunir um punhado de gente numa sala de espetáculos me parece uma ação de extrema responsabilidade. Mas, e daí? Promove-se tal encontro com qual intuito? Com algum tempo de trabalho e simultânea reflexão, foi-me interessando pensar a dramaturgia como um lugar no qual – e pelo qual – o impossível pudesse virar possibilidade. Isso me veio durante o processo de criação de Sinfonia Sonho (cujo um dos estímulos iniciais foi o massacre de crianças ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira em abril de 2011 no Rio de Janeiro). Eu me perguntava: se o homem foi capaz de produzir este tipo de acontecimento, a saber: o massacre de crianças em espaço escolar; ora, então por que eu, como artista, não posso tornar possível outra coisa? Insisto: se o homem é capaz de realizar aquilo que me parecia impossível (a matança de crianças), por que então a poesia não pode, ao menos na sala de espetáculos, se instaurar como real possível? Por que a metáfora não sequestra o nosso dia-a-dia e nos impõe sua batida?

Penso que a cena teatral, se ainda interessada em enfrentar o mundo e oferecer aos seus paradigmas o mínimo de estranhamento capaz de refazê-lo, muito provavelmente essa cena vai ter que operar por meio de algum gesto de violência. Eis o terrorismo enquanto um gesto de caráter destrutivo interessado num propósito muito específico tal como define Walter Benjamin:

"O caráter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas eis precisamente por que vê caminhos por toda parte. Onde outros esbarram em muros ou montanhas, também aí ele vê um caminho. Já que o vê por toda parte, tem de desobstruí-lo também por toda parte. Nem sempre com brutalidade, às vezes com refinamento. Já que vê caminhos por toda parte, está sempre na encruzilhada. Nenhum momento é capaz de saber o que o próximo traz. O que existe ele converte em ruínas, não por causa das ruínas, mas por causa do caminho que passa através delas." [1]

Mas e daí? Penso ser necessário lançar um olhar, ainda que superficial, sobre a tal realidade. Palavra invólucro que esconde em si um manancial imenso de diferenças e disparidades. Costumo escrever muito tais palavras: realidade, mundo, real, sociedade... Mas se as escrevo, é porque – como dramaturgo – aprendi a desconfiar de sua imagem. Quando escrevo realidade, hoje, agora, o que eu vejo? Diferença. Uma conjuntura sócio-política, econômica e cultural, que de maneira impiedosa quer me convencer a aceitar que a mudança é algo improvável e inalcançável. A realidade, em sua faceta mais hegemônica, parece ser inerte a toda e qualquer transformação. Mas não. A vida nunca não foi transformação. A vida em curso, a respiração dos corpos, a morte, o vento, as mudanças climáticas, a formiga que morre, a fruta que despenca da árvore, o dólar e a bolsa de valores, as mudanças de sorte, o lançamento do novo iPhone, o feed de notícias, ora!, nada está assim tão inerte ao movimento e à transformação. Então é preciso se perguntar para quem – e por qual motivo – se insiste tanto nessa dura afirmação de que não é possível mudar, de que o mundo é isso tal como se apresenta, de que não há saída. É urgente desmontar esta afirmação – dura e, por isso, morta – de que a vida não tem mais jeito.

Abrição de caminho, eis a urgência de um dramaturgo. Ora, o que seria o terrorismo da dramaturgia se não esse empenho em desmontar o arranjo dado e possibilitar, através das suas ruínas, vislumbrar outros modos de vida e de relação? Via dramaturgia, o que foi dito impossível nos impulsiona à realização. O impossível vira possibilidade e, a meu ver, essa é a chave: a possibilidade de forjar realidades que não só esta que nos é dada. Dramaturgia como possibilidade de reinvenção (da linguagem e, por extensão, também do mundo).

Propagada e repetida todos os dias pela mídia, pelas religiões, pelos vizinhos e familiares, pelos governos e por instituições educacionais, até por nós mesmos, tal afirmação – a de que não é possível mudar o que jaz instituído – tal afirmação parece querer nos fazer aceitar que as mazelas humanas serão para sempre um fato e que não há responsáveis. Mas é preciso duvidar. É preciso forçar o instaurado e a dramaturgia é um gesto muito potente para tal desmonte, afinal, em torno dela se reúne não só o artista, mas também certa pequena multidão chamada público. Vejam: o encontro teatral é, desde sempre, um mundo (a cena) nascido dentro do mundo (a realidade) forjando outro mundo possível (aquele que poderá vir a ser, desde que nos responsabilizemos por fazê-lo acontecer).

A urgência na escrita hoje é a de colocar o teatro no seu lugar – inevitável – de ser-estar em constante crise. Colocar o teatro em desafio, tentando reter o real e sempre derrapando, é colocar-se – enquanto criador – suscetível às constantes transformações que trafegam nas veias-ruas deste corpo-mundo. O teatro está em crise não porque lhe falte público, não porque tenham sumido seus espaços físicos, mas sim porque a vida cotidiana não encontra, dentro da sala de espetáculos, algum turvo espelho que a modifique e, novamente, consiga a tornar possível.

Volto ao início: quer experiência mais anacrônica e, justamente por isso, quer experiência mais revolucionária que a do ato teatral, que reúne num mesmo espaço-tempo um dado número de pessoas em torno de um mesmo problema? Dramaturgia é trabalho que traga e que não acaba, porque o mundo está sempre movido a precisar de reparo, de costura, de sutura, de solução. Dramaturgia é, pois, isto: gesto de amor e terror; gesto-revolução; gesto que desmonta a vida visando oferecer-lhe novos e outros caminhos: quer existam eles ou (ainda) não.

[1]: BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única. São Paulo: Brasiliense, 1987, P. 225.










Diogo Liberano é Artista-Pesquisador graduado em Artes Cênicas: Direção Teatral pela UFRJ e Pós-Graduando em Artes da Cena pela mesma instituição, além de ser Diretor artístico da companhia carioca Teatro Inominável.
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