Teatro e Gênero - Um ensaio sem neutralidades ou como podemos (r)existir no teatro.
Por: 
Igor Leal
Postado em: 
Novembro 26, 2015

[...] ao mesmo tempo em que o gênero não é natural, biológico e universal, a-histórico ou essencial e ainda assim afirmar que o gênero é relevante por que estamos tomando-o como uma posição a partir da qual podemos agir politicamente.

-- Marvin Carlson.


É interessante notar como vêm ganhando espaço na cena artística e política brasileira trabalhos artísticos que se debruçam em torno das construções das identidades de gênero e que carregam em sua gênese uma resistência –artística- às normas que definem essas próprias categorias identitárias.

Além do caráter intrinsecamente político, estes trabalhos vêm se fortalecendo também enquanto pesquisa de linguagem artística, e evidenciam potenciais de reinvenção nas dimensões estéticas e éticas do fazer artístico-cultural. Podemos notar, em Belo-horizonte, por exemplo, um aumento de grupos e coletivos artísticos, que relacionam em seu repertório ou em sua produção criativa as temáticas de gênero, sexualidade e de corpos não hegemônicos, articulando, em certa camada, subjetividade, encenação e práxis política.

De certa forma, entendo que muitos destes trabalhos na cena contemporânea apontam campos de saberes e conhecimentos oriundos de movimentos sociais e teorias feministas. Estes últimos, a partir da década de 80, contaminados pelos estudos pós-coloniais, promovem um giro na forma de definir “corpo” - dando atenção a produção performativa da materialidade, e propõem análises mais complexas sobre as relações de opressão. Para x pesquisadorx Paul B. Preciado, há uma virada reflexiva, “decorrida, entre outras coisas, do giro performativo na análise da identidade sexual e racial, promovidas por autoras como Judith Butler, Sue Ellen Case e Eve K. Sedgwick. Essas autoras vão utilizar a noção de “performance”, a princípio estranha ao âmbito feminista, para desnaturalizar a diferença sexual.” (PRECIADO. Entrevista com Beatriz Preciado, por Jesús Carrillo. P. 52).


Com a noção de performatividade de Judith Butler temos a possibilidade de olharmos para a realidade social e cênica podendo afirmar que, da preparação do corpo ‘extra-cotidiano’ em sala de ensaio aos enquadramentos ficcionais/friccionais na cena, as características de gênero não podem ser tomadas nunca como naturais.


Desta forma, falar das experiências artísticas com a ótica de gênero é tentar desvelar a ficção das identidades, é uma denúncia as armadilhas da representação na produção de realidade social e cênica. É notar os olhares de primazia do discurso masculino na história da arte, é evidenciar o ideal normalizador masculino implícita nas teorias de treino do ator. É reconhecer, aquilo que a atriz e pesquisadora Lúcia Romano aponta: a ‘universalidade do corpo’, subentendida na neutralidade de gênero, de fato oculta a supremacia do corpo masculino enquanto forma de referência para a representação. “Tal supremacia significa uma violência contra outros tipos de corpos ‘minoritários’ obrigados a superar suas diferenças (tornadas incorreções) a fim de participar dos sistemas simbólicos” (ROMANO. De quem é esse corpo? – A Performatividade do Feminino no Teatro Contemporâneo).


Fazer gênero e teatro é também navegar nas negociações de como a arte vem elaborando com a sociedade as categorias possíveis de corpo, sexualidade e gênero. Copiando Romano, “teatro não tem gênero, faz gênero”, compartilhando com a sociedade as categorias de sexo, já tornadas em performance de gênero, e auxiliando seu reconhecimento e legitimação.


É notável que a maior parte da produção teatral reitere um alinhamento “coerente” entre sexo-gênero-sexualidade, imperativo das relações sociais. Guacira Louro em ‘Estranhamento queer’ relata que

As normas sociais regulatórias pretendem que um corpo, ao ser identificado como macho ou como fêmea, determine, necessariamente, um gênero (masculino ou feminino) e conduza a uma única forma de desejo (que deve se dirigir ao sexo/gênero oposto). O processo de heteronormatividade, ou seja, a produção e reiteração compulsória da norma heterossexual, inscreve-se nesta lógica, supondo a manutenção da continuidade e da coerência entre sexo-gênero-sexualidade. É binária a lógica que dá as diretrizes e os limites para se pensar os sujeitos e as práticas. Fora deste binarismo, situa-se o impensável, o ininteligível. (LOURO. Estranhamento queer. P. 2)

Contudo, o teatro pode atuar – e atua – de várias formas sobre as construções de gênero, visto que nada que ocorre em cena pode ser tomado como essência ou como natural, pois,

o corpo cênico, com sua arquitetura projetada no espaço, traz a possibilidade de franquear a organização da vida humana, do mesmo modo que revelar seus mecanismos ideológicos de construção. Apesar de funcionar com padrões de identificação (ou de desidentificação), o teatro não precisa reproduzi-los, ausentando-se de sua potencialidade de conscientização e “provocação.” (ROMANO. De quem é esse corpo? – A Performatividade do Feminino no Teatro Contemporâneo. P. 78)

Além dessa potência , a própria ideia de gênero performativo de Judith Butler traz em si a potencialidade subversiva. Isto por que, a noção de performativo para a autora feminista entende o gênero como prática e desvela o caráter intrinsecamente reiterável e, portanto, transformável das normas reguladoras das práticas de gênero. Assim, consideradas práticas sociais significantes, as normas de gênero estão expostas às possibilidades de alteração, de desvio ou, ainda, há maneiras distintas de interpretação.

Para Fischer-Lichte o próprio conceito de performativo de Butler traz esta potencialidade subversiva:

Nos atos performativos e com os atos performativos, com os quais se constitui o gênero – e a identidade em geral – a comunidade exerce violência corporal sobre o indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, e alterando-se , estes atos brindam, sem dúvida, a possibilidade de que eles e com eles, cada indivíduo crie a si mesmo como tal – ainda que seja a margem das ideais dominantes na comunidade e pagando o preço das correspondentes sanções sociais. (FISCHER-LICHTE. Estética de lo performativo. P. 56. tradução do autor)

Em um país femicida como o Brasil e que apresenta índices alarmantes de lesbotranshomofobia como regulação das fronteiras de gênero, reinventar as relações de gênero é urgente. Elaborar produções artísticas de empoderamentos e emancipações, que crie novos sentidos de organizar a vida é urgente. Fazer teatro e gênero é resistir ao mundo cada vez mais árido e seco.

Assim, nesse caminho de resistências o ano de 2015 foi um fervor que merece ser brindado, um ano de urgências. E por isso não posso deixar de registrar:
Um viva a trabalhos como “Calor na Bacurinha” (as bacurinhas. Dir. Marina Viana), “Rosa choque” (os conectores. Dir. Cida Falabella) “Madame satã” (Grupo dos dez. Dir. João das Neves). Um viva a artistas como Nina Caetano, Cristal Lopez, Will Soares, Zaika dos Santos, Ana Luisa Santos, Fernanda Branco Polse e Ed Marte. Muitos vivas a NEGR.A (coletivo de negras autoras). Um beijo nas ocupações artísticas feministas (Diversas -Feminismo, Arte e Resistência ) e Queers (Afazeres Queers, arte viada no centro -Beijo no seu preconceito), Ocupação de Novos Coletivos do Teatro Marília que apresentou um eixo temático de teatro e gênero, e na Semana da diversidade da UEMG, Viva a Gaymada (Toda Deseo) e a Dengue: duelo de Vougue (Guilherme Morais - This is not), Um beijo na Montarya, nas drags e sapas dessa cidade. Um viva a Transrêsidencia: Experimento Queer no Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto. Um viva ao Festival Estudantil de Teatro -FETO 2015 reluzente de “estéticas das viadagens”. E para finalizar o ano, um viva para a roda de conversa: éticas e estéticas lesbitransqueer que ainda vai acontecer dia 01 de dezembro na Praça de Serviços da Universidade Federal de Minas Gerais.

Trabalhos que guardam tantas especificidades e singularidades, que marcam uma pluralidade estética, e que investigam e apresentam inquietações talvez difíceis de caracterizar em poucas palavras e por palavras precisas, mas que buscam e nos levam a querer novas relações vivíveis. Remetem a teatro e gênero como espaço de ativismo e arte, que interpelam e apontam a desajustar as amarras de sentido e seus marcos de previsibilidade.
_______________________
Sugestão de leitura:
www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

REFERÊNCIAS
BUTLER, Judith . Sujeitos do sexo/gênero/desejo in Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Tradução: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2003.
FISCHER-LICHTE, Erika. Estética de lo performativo. Editora: Abada Edidores. Trad de Diana González Martiñ e Davida Martinez Perucha, Madri, 2011
LOURO, Guacira. “Estranhamento queer”. Labrys, étudesféministes/ estudos feministas janvier /juin 2007 - janeiro / junho 2007. Acessado http://www.scribd.com/doc/142601482/O-%E2%80%9Cestranhamento%E2%80%9D-queer
PRECIADO. Entrevista com Paul Beatriz Preciado, por JesúsCarrillo.
ROMANO, Lúcia Regina Vieira. De quem é esse corpo? – A Performatividade do Feminino no Teatro Contemporâneo. São Paulo: L.R.V Romano, 2009.

Igor, ator, artista e ativista extraviado.
<< Voltar
Centro de Pesquisa e Memória do Teatro do Galpão Cine Horto - Rua Pitangui, 3613 - Bairro Horto - Belo Horizonte - MG
Tel: 31 3481.5580 - portalprimeirosinal@gmail.com
---------------------------
Os créditos das fotos do cabeçalho se encontram na seção Quem Somos.
Facebook Twitter