Sobre quem somos nós e o que podemos fazer
Por: 
Tiche Vianna
Postado em: 
Fevereiro 4, 2011

Poderia escrever sobre tantos assuntos pertinentes ao universo das artes do teatro e assim o farei, mas inicio hoje, um conjunto de conversas que deverão se desenvolver ao longo de um período indeterminado e, primeiramente, gostaria de não ter a responsabilidade de fornecer respostas a nada, porque só posso falar de um olhar, apenas um olhar e ao mesmo tempo, todo um olhar sobre as tantas realidades que habitam uma mente inquieta e incansável. Diante disso, nada me resta além de compartilhar as inquietações e me oferecer como material disponível aos tantos outros inquietos corações, que como eu, estão em busca de alguma pergunta bem formulada, compreensiva, que nos sirva de pista para nossos próximos percursos. Compartilho portanto, o desejo de alcançar algo que me transfira para além daquilo que já sei e já faço, para territórios desprovidos de certezas, mas completamente arrebatados por paixões, que sejam inseguros e incertos e me obriguem à cautela como um ganho de tempo, à perseverança como a continuidade do desejo e ao vazio, como a confiança de que é possível encontrar o inédito em mim.

            Pensei durante muitos dias, assim que aceitei o convite de escrever para este site, para decidir que estilo seguir: acadêmico, formal, informal, técnico, etc e conjuntamente fui procurando trazer à luz os temas que me provocam e sobre os quais me interessa compartilhar o pensamento. No encontro destes dois aspectos, me dei conta de que provavelmente, ao longo destas conversas, usarei diversos estilos inclusive aqueles que neste momento nem passam por minha idéia. Talvez escape, e muito, do acadêmico, porque não sou acadêmica, sou fruto da trajetória empírica, então não há como fazer diferente disso e pretendo fugir do discurso formal. Prefiro realmente expor à flor da pele o pensamento como um ato presente e me servir das palavras escritas para afetar o leitor e provocar-lhe o desejo de não só pensar a respeito, mas de realizar ações que lhe permitam experimentar questões, porque vejam, não é a resposta o que experimentamos, nós experimentamos a relação com a dúvida, isto é o que nos seduz: a dúvida.

            Queremos e precisamos duvidar para que possamos seguir adiante, senão não temos prá que seguir. Não há nada mais sem graça, embora necessária, do que a resposta, porque ela encerra o caminho, é o fim do percurso e se paramos de percorrer, terminamos, acabamos, esgotamos todo e qualquer movimento. Com isto, algo em nós estanca, morre. Não há resposta que não nos mate se não trouxer consigo uma nova questão. Por isso proponho a dúvida e não a certeza das coisas, como um caminho para este nosso convívio. Proponho que utilizemos este encontro para que a provocação nos instigue a ponto de nos movermos e que este movimento seja o ato primeiro de toda e qualquer criação. É dela, da criação, é sobre ela que desejo escrever: a criação, este ser tão condicionado à vida que nos habita. Que vive em nós como símbolo da necessidade de alcançar o que está além do que se estabelece como um único fim capaz de traduzir um bem comum para todos, pois estar cômodo pressupõe não criar, estar de acordo pressupõe não criar, concordar sem restrições pressupõe não criar. E é por esse motivo que não criamos o tempo todo, infinitamente. Temos picos de criação que estão ligados às relações de mundo de cada um. Seria, pois, correto afirmar que só criamos quando nos relacionamos com o que não acreditamos, não aceitamos e não concordamos?

            Não é uma técnica o que nos faz criar, embora precisemos da técnica para expressar o efeito de uma criação, mas a técnica não cria, ela mostra o que está sendo criado. Para criar, precisamos da experiência e a experiência é um ato presente, é um acontecimento singular que nos envolve e se passa conosco. A experiência não é anterior nem posterior ao acontecimento ela está no acontecimento e por causa disso, gera movimento, nos aciona, nos provoca, nos impulsiona à reação. Querer criar é reagir à necessidade de inventar, de encontrar em nós a singularidade que nos fará tocar o original (sem nos perguntar se alguém já fez isso antes, porque sabemos que não estamos inventando o que nunca foi inventado e isso não nos preocupa). A originalidade e o inédito que estamos buscando são o ato presente. E ao estarmos no tempo presente, percebemos que inventamos, porque ao nos relacionarmos pela primeira vez com tudo o que está ao nosso redor e dentro de nós, não sabemos o que faremos, antes de fazê-lo, nós “simplesmente” fazemos, como uma resposta ao que está acontecendo conosco e entre nós que estamos nos relacionando. Desta forma, propiciamos a todos que estão diante desta relação, que possam fazer o mesmo, pois algo está acontecendo diante deles e os permite iluminar o que na vida parecia ser tão banal e habitual e torná-lo especial, por um instante que seja, e isso é também para o espectador, uma experiência.

            Se não nos deixamos afetar não conseguimos viver a experiência e se não experimentamos não criamos. Tudo em nós e diante de nós será apenas uma repetição contínua do que já se deu no tempo que já passou e assim, seremos nós mesmos os constantes falsificadores de uma realidade fixa e desinteressante na medida em que não transformaremos nada nem ninguém, inclusive nós mesmos.

            Para finalizar, sugiro a leitura do texto “Notas sobre a experiência e o saber de experiência”de Jorge Larrosa Bondía. O texto pode ser solicitado via e-mail, pelo endereço contato@primeirosinal.com.br

  

Diretora e pesquisadora teatral do Barracão Teatro – Espaço de Investigação e Criação Teatral.
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Os créditos das fotos do cabeçalho se encontram na seção Quem Somos.
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