Restauração do coletivo criador
Postado em: 
Maio 26, 2011

A ideia da autoria individual em oposição à da autoria coletiva tem-se se fortalecido ao longo da História e chega aos séculos XIX e XX em posição hegemônica, reforçada por um aparato de práticas, conceitos e preceitos. As práticas a que me refiro correspondem a todo um conjunto de processos de criação que reforçam a ideia de especialização e divisão de tarefas. A criação artística passa a adotar práticas e métodos semelhantes aos utilizados no processo industrial. Já nas metáforas dos séculos XVIII o mundo passa a ser visto como uma máquina, um todo mecânico dividido em partes com funções específicas. Essa metáfora é transposta para a ação humana. O raciocínio é que quanto mais essas partes se desenvolvessem e se especializassem no exercício de suas funções, ao agirem em conjunto conduziriam a melhores resultados. Não que isso não seja verdade. Todas as áreas, artísticas ou não, têm atingido resultados satisfatórios através dessa prática.

 

 

A ideia de autoria individual é também respaldada por conceitos como talento e originalidade, elementos muito valorizados desde a arte moderna, e que são claramente redutos da criação individual. E, finalmente, a concepção de autoria individual conta ainda com uma série de preceitos que defendem sua supremacia, inclusive legais, como os direitos autorais ou de propriedade intelectual.

 

 

Talvez tenha sido por essas e por outras razões que nos acostumamos a pensar que toda obra artística tenha, necessariamente, que ter um indivíduo que a assine, que responda pela totalidade de sua criação. Isso talvez explique o estranhamento ou a desconfiança que os processos coletivos de criação artística, entre eles o processo colaborativo, ainda provocam. À primeira vista os processos coletivos sugerem métodos pouco ortodoxos de criação “inventados” ao longo da segunda metade do século XX e cuja “novidade” se apresenta como expressão de mais uma atitude experimentalista tão ao gosto do mesmo século. Felizmente sabemos que não existe geração espontânea e que nada pode ser “inventado” se não tiver atrás de si todo um caudal de antecedentes históricos. Basta voltar alguns séculos para perceber que a autoria coletiva e processos coletivos de criação artística não eram assim tão estranhos. Certamente não se apresentavam da forma como os vemos, praticamos e teorizamos atualmente, mas a ideia de uma autoria individual ainda estava impregnada por uma mentalidade de autoria coletiva. A ideia do autor como aquilo que Ariano Suassuna chama em A Pedrado Reino de “diascevasta” não era nem um pouco estranha. Diascevasta, no sentido amplo que lhe dá o escritor pernambucano, é o criador que constrói sua obra a partir e em diálogo com a obra de outros criadores. Sua criação artística não tem o objetivo de parir, a partir de si, uma obra absolutamente original. Ao contrário, busca compor uma nova geometria que abrigue as obras de outros autores, dialogando com elas e as modificando. Esse mesmo caminho foi trilhado por Shakespeare, Molière, Cervantes, Dante, Bocaccio e inúmeros outros que construíram sua obra dialogando com a obra de outros autores. O próprio Homero, que, segundo a tradição, lançou as duas pedras fundamentais da literatura ocidental, Ilíada e Odisséia, não fez senão dialogar com as sagas construídas por outros autores anônimos, anteriores a ele.  Em resumo, é o que todo criador faz: constrói sua obra a partir da obra e das ideias de outros autores e pensadores - e de suas próprias ideias e experiências-. E nessa construção expõe também sua visão de mundo, imprime seu estilo. Afinal, o imaginário de onde quaisquer criadores extraem sua obra é comum e foi estabelecido pelo coletivo humano. Originalidade individual e absoluta parece ser um mito muito bem construído e defendido pelo pensamento dominante em sua cruzada em defesa do individualismo em detrimento do coletivo.

 

 

Se os autores com os quais o criador dialoga e extrai elementos estão já mortos ou são parceiros vivos - atores, cenógrafos, técnicos, e outros criadores - pouco importa. O que importa é estabelecer uma geometria rigorosa e ampla o suficiente para permitir a expressão autônoma de todas essas vozes.

 

 

Os gregos, segundo Herbert Head, embora sendo a fonte de nossa filosofia da arte, não tinham palavra para arte. Usavam techne – um equivalente à palavra inglesa skill (habilidade). A palavra arte, continua o crítico e pensador, deriva do latim ars, que também implica skill  e deriva da raiz ar,  que significa encaixar ou juntar. O raciocínio derivado é que, quanto mais nos afastamos de uma significação de arte que implica apenas expressão da subjetividade do criador, mais nos aproximamos de seu sentido original, uma forma, uma geometria objetiva que se atinge mais com o conhecimento e a habilidade do que com o desejo subjetivo do criador. Se encaramos arte como coisa objetiva a ser atingida, encararemos seu processo como trabalho e sua construção também possível através do concurso de inúmeras mãos e habilidades criadoras. Isso não significa que a autoria individual não seja eficiente e seus resultados não sejam rigorosos ou satisfatórios do ponto de vista artístico, ao contrário. O que há de mais interessante nas criações coletivas é a expansão dos limites individuais, o aprendizado que o efetivo diálogo entre criadores propicia ao criador individual. É o montante de desafios enfrentados e técnicas apreendidas que lhe serão de imensa valia em seu trabalho solitário.

 

 

Os processos coletivos de criação, mais do que pesquisa ou expressão contemporânea do fazer artístico, são uma retomada de um procedimento histórico. Remontam certamente à cultura da oralidade quando, sem a escrita que atesta e documenta a autoria individual, as ideias, palavras e mesmo obras estavam em constante mutação por acréscimo, perda ou modificação dependendo do indivíduo que as ouvisse e reelaborasse.Os processos coletivos de criação, ao contrário de negar a autoria individual, agem como impulsionadores dessa criação. A arte nada perde se sua geometria é conseguida pela criação individual ou coletiva. Indivíduos e coletivos criadores são duas potências opostas e complementares que perfazem o vigor da criação artística contemporânea. Negar qualquer um desses caminhos à criação artística é reduzir em muito os seus horizontes.

Dramaturgo, roteirista e professor. Autor de mais de sessentas obras encenadas.
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