Pesquisa na Rua - A dramaturgia do Espectador
Por: 
Tiche Vianna
Postado em: 
Junho 9, 2011

A rua é um espaço público. Espaço que pertence a todos e que não é propriedade de ninguém. Lugar do possível encontro entre todas as diferenças, todas as diversidades, todas as singularidades. A rua é o espaço do incerto, do transitório, do geral. Para nós, um grupo heterogêneo de artistas cênicos, o lugar ideal para experimentarmos os instrumentos capazes de capturar um espectador nem sempre disponível para se relacionar com estranhos ou estranhezas. Para quê? Para encontrar os meios de ressignificar a arte em nossas vidas.

 

Nesta aventura investigativa, escolhemos um local no centro da cidade de Campinas, que nos acendeu o imaginário. Não podia ser qualquer lugar. Tinha que ser um espaço que também nos capturasse. E este nos capturou de primeira! Escolhemos o túnel que liga um bairro ao centro e vice versa, passando por baixo das linhas de trem, construído em 1918. Nosso “Túnel de Passagem!”

 

O trabalho consistia em colocar neste túnel figuras criadas e já trabalhadas pelos atores que pudessem desenvolver alguma ação que estivesse relacionada com o caráter desta figura ou realizar ações a partir de alguma circunstância dada. Chamávamos a isto de “interferências” no cotidiano daquele túnel de passagem. Estas interferências aconteciam sempre no mesmo dia, às quartas feiras, no mesmo horário, entre 14:30 h. e 16 h. e tinham aproximadamente entre 40 e 60 minutos de duração.

 

Também estabelecemos alguns códigos e regras entre nós para assegurarmos a participação do coletivo artístico e para evitarmos qualquer transtorno que nos obrigasse a revelar que estávamos pesquisando a linguagem teatral. Nossas regras eram:

1. Não revelar a ninguém que estávamos fazendo teatro, 2. Evitar ao máximo falar demais sobre qualquer coisa, mas provocar a fala do espectador, 3. Instaurar uma relação com o espaço antes de iniciar qualquer ação, 4. Nunca estar só, perceber a presença da equipe ainda que à distância, mesmo que apenas um de nós estivesse em ação, 5. Ajustar os relógios nos mesmos horários e deixar nossos celulares ligados, 6. O término da intervenção era combinado a partir de um gesto definido previamente e executado por um de nós, 7. Todos tinham que estar com suas carteiras de identidade, 8. Chegaríamos e sairíamos separados do túnel, como se não nos conhecêssemos, 9. Aqueles que não estavam realizando uma figura ou ação determinada estavam infiltrados no cotidiano da rua, como transeuntes comuns daquele túnel de passagem. 10. Não mentir, encontrar o modo justo de argumentar a respeito de qualquer pergunta que nos fosse feita, evitando criar histórias sobre nós mesmos ou sobre o lugar. Desta forma, deveríamos encontrar modos de proporcionar ao espectador a vontade de refletir sobre as questões que se levantavam, por causa do encontro entre ficção e realidade. Este para nós era um grande exercício de retórica e improvisação do discurso.

 

O sentido desta nossa “provocação”, através destas interferências, era a de alcançarmos algo que, de alguma maneira, obrigasse o espectador a sair da indiferença e a se posicionar diante da vida que se apresentaria de modo extraordinário aos seus olhos. Sabíamos, desde o início, que esta condição também se apresentava prá todos nós, como artistas da cena. Nós também deveríamos nos afetar de modo surpreendente, pela rua e por aquilo que os espectadores da rua, sem saberem que se tratava de teatro, pudessem nos causar. Fizemos seis interferências dentro do nosso “Túnel de Passagem”. Farei o relado de três delas para ilustrar nossa experiência.

 

Nossa primeira ação foi com uma figura:  “Mulher da Praia”. Criada em sala, a partir do imaginário de uma atriz e de sua relação crítica com o mundo ao seu redor, esta figura entrava no túnel e caminhava de costas, muito lentamente. Seus olhos lacrimejavam e tínhamos a impressão de que ela chorava. Nós, que éramos observadores, exercíamos o papel de infiltrados e nos surpreendíamos com a mulher, da mesma maneira que a maioria das pessoas que passavam por lá. Procurávamos uma cumplicidade com o olhar de algum espectador e quando achávamos que estava estabelecido o contato, nos aproximávamos como se indagássemos algo. Em geral as pessoas começavam a falar alguma coisa. Muitas pessoas atribuíam a ação da “Mulher da Praia” a um fato sobrenatural: “Ela é médium”, “é trabalho”, coisas assim. Algumas pessoas lhe perguntaram se estava se sentindo bem. Ela, com o mesmo olhar, acenava com a cabeça um “sim”. Surpreendeu-me o comentário de uma velha senhora: “- ela fumou maconha estragada” e a observação de dois jovens que vinham atrás dela: “legal uma coisa dessas no meio do caminho da gente”. Surpreendeu-me também a insistência de uma mulher tentando explicar o que via ao mesmo tempo em que desconfiava do que dizia: “- acho que ela ta com dor nas costas”.  - Será? – retruquei. E ela insistindo com desconfiança de si mesma: “- ta sim, ela ta chorando por causa da dor, a gente chora quando ta com dor, não chora?”. Dois policiais entraram, olharam a Mulher da Praia, deram bronca em um rapaz que estava fumando dentro do túnel e em outro que vinha sobre um skate. Não disseram nada à Mulher da Praia e saíram. Depois comentaram, um com o outro, que ela era “zen”, que devia ensiná-los a ser assim. Disseram que ela estava voltando no tempo e aí brincaram: “- Nossa, agora eu viajei”. A Mulher da Praia não passou despercebida por ninguém e muitos se permitiram um momento de admiração, reflexão e imaginação, ao interromperem por um instante seu fluxo cotidiano.

 

A segunda ação foi uma circunstância criada por uma pergunta: “posso te acompanhar até o outro lado?”. De cada lado do túnel, um ator e uma atriz, perguntavam a quem entrava: “posso te acompanhar até o outro lado?”. Eu estava infiltrada e quando cheguei ao túnel, para iniciar a observação e o contato com os demais transeuntes, ouvi a voz de uma das atrizes de nosso grupo falando muito, do outro lado de onde eu estava. Uma sensação de alguma coisa representada me atravessou naquele momento, de uma personagem, de um teatro realizado como aparência... Apressei os passos em direção à voz para tentar perceber melhor o que se passava e interferir na ação que parecia estar fora do que nos propúnhamos. Não consegui chegar até ela porque os acontecimentos me levaram a outras atitudes. Estava frio, os dois, ator e atriz que fariam as ações propostas, estavam encapotados, com cachecol, chapéu. Causaram medo nos transeuntes, ou talvez a mesma sensação que a fala da atriz que estava fora do túnel provocou em mim. Aspessoas se assustaram muito com eles. Algumas enfrentavam o medo e consentiam em ser acompanhadas, mas estavam desconfiadas. Resultado: fomos denunciados e a polícia entrou no túnel, atrás de alguém que ela não sabia bem quem era. Neste momento ator e atriz estavam do mesmo lado do túnel para abordar um espectador. A polícia interpelou o ator dizendo que ele estava parado em um péssimo lugar porque causava medo nos outros. Para a atriz, mandou que ela seguisse. “- sozinha?” – ela perguntou e eles responderam que sim, que não havia perigo. Os policiais seguravam armas nas mãos para falar com o ator e isso o assustou bastante. A atriz não queria se afastar para não deixar o companheiro sozinho com os policiais. A atriz “de fora” do túnel, que também era uma infiltrada, se aproximou da atriz “de dentro” como uma transeunte curiosa com o que se passava. A atriz “de dentro” insistiu com os policiais em não atravessar sozinha, utilizando o mesmo jogo em relação a eles: “- posso te acompanhar até o outro lado?” Os policiais insistiam em que ela estava em segurança e podia fazer a travessia. A atriz infiltrada interveio dizendo à atriz “de dentro” que poderia acompanhá-la até o outro lado. Os policiais acompanharam as duas até o outro lado. O ator, que já havia saído e dado um tempo do lado de fora, começou a retornar quando os policiais estavam voltando, dentro do túnel, para a saída contrária a das atrizes que seguiram. Ele então saiu assustado e encerramos o trabalho para evitar que perdêssemos esse espaço, caso tivéssemos que dizer aos policiais que era teatro e eles pedissem que tirássemos autorizações ou coisas do gênero. Ao final desta ação pensamos e debatemos muito. Imaginávamos que havíamos nos equivocado quanto à abordagem, pois as pessoas se assustaram... Com o que?? Com a pergunta, com os atores (que também estavam muito assustados)??? Dias depois, a atriz “de dentro” ponderando sobre este acontecimento, nos chamou a atenção para um dado estético. Disse que a ação tinha sido real demais, faltava  construção estética, ou a proposição artística. Consideramos isso e refizemos a mesma ação de uma forma completamente diferente na semana seguinte.

 

Nossa quinta e sexta ações foram com uma mesma figura: “ Mulher Clássica”

Criada e realizada por uma atriz que só esteve conosco nesta etapa da pesquisa e nos emprestou uma maravilhosa figura para interferimos pela última vez neste projeto. Frágil, belíssima, deslocada de seu tempo, esta Mulher apareceu de repente na rua que chega ao lado do Túnel de Passagem, caminhando lentamente, vestida como no início do século passado, anos 20, carregando sua bolsinha e redesenhando a cidade, como se riscasse com cada gesto ou delicado movimento uma nova linha expressiva por onde passava. Não houve quem não parasse para admirá-la e comentar: “você é linda”! A delicadeza da Mulher Clássica era tanta, que as pessoas também se dirigiam a ela de modo delicado, lento, suave. Do olhar à fala, todos foram tocados profundamente por esta figura inexplicável que surgiu nas ruas de Campinas. Tinha indicado à atriz que não criasse nenhuma história, mas que se colocasse na situação de quem, ao sair de casa como de costume, atravessando o túnel, como de costume, em 1920, repentinamente se deparasse com pessoas vestidas, penteadas e com um comportamento igual ao nosso, em 2010. Enquanto não chegasse ao túnel, a Mulher Clássica, caminhando pela rua, não se daria conta de nenhuma diferença. Nem bem havia chegado às proximidades do túnel, ao dobrar uma esquina, um homem bem vestido, sério, com um olhar entristecido, se aproximou dela e desabafou: “- preciso ser internado para parar de beber!” Ele estava completamente sóbrio. Conversou com ela e chorou. A Mulher Clássica lhe deu a mão, o escutou e o consolou evitando palavras. Tocou nele para confortá-lo. Depois se separaram e ela continuou, muito emocionada, sua caminhada em direção ao túnel. Chegando lá, uma profusão de sensações e comportamentos arrebatou a todos. Alguns transeuntes mexiam com a Mulher como se ela fosse louca e em sua loucura, seu olhar assustado, de quem via um bando de pessoas estranhas, provocava quem passava. Jovens falaram alto tirando um sarro da situação, mulheres foram solidárias a ela e brigaram com os que mexiam com tão frágil e delicada figura. Muitos comentavam o que ocorria lá dentro gerando certa confusão, o que, provavelmente, provocou nova denúncia aos policiais, mas desta vez eles chegaram diferentes. Era um casal. A mulher, embrutecida pela força que a profissão lhe impunha, foi de uma delicadeza infinita perguntando à nossa Mulher Clássica: “- está tudo bem?”. A Mulher Clássica sorria e olhava, sem falar. Acenando com a cabeça afirmativamente. O homem policial sorria, um pouco sem graça pela situação tão delicada, próxima e fora do comum para as suas tarefas de ordenar as coisas. Mantinha-se perto das duas mulheres: Clássica e Policial, como um guarda costas, porém tão delicado quanto as duas. Muitas perguntas foram feitas à Mulher Clássica pela policial. Tive a certeza de que em sua função ela iria proteger a Mulher Clássica e a levaria para fora do túnel para tentar saber quem ela era. Neste momento, como diretora, me senti convocada. Aproximei-me da Mulher e dos Policiais. Meu intuito era tranqüilizar a atriz, que por trás da figura, procurava respirar e manter a interferência até onde pudéssemos conduzi-la. A policial perguntou se a Mulher Clássica poderia ser acompanhada por ela. Foi quase um “posso te acompanhar até o outro lado?”. A atriz me olhou e eu, discretamente fiz que sim com a cabeça. A Mulher Clássica seguiu acompanhada pelos policiais. Eu seguia os policiais e os demais infiltrados de nossa equipe seguiam atrás de nós. Chegamos ao final do túnel, deveríamos subir as escadas em direção ao bairro. A Mulher Clássica, como se assustasse diante de um “mataburro”, pára diante de um ralo. A policial imediatamente lhe diz: “- pode seguir, está tudo bem” e vendo que a Mulher Clássica não se deslocava, segurou sua mão como quem ajudava alguém em dificuldade, pedindo aos transeuntes, que desciam para o túnel e paravam para ver a Mulher, que saíssem da frente. Procurando criar espaço ao redor da Mulher Clássica, para protegê-la, me viu atrás dela e me deu licença como se eu quisesse passar. Me mantive onde estava. Ela insistiu, recusei novamente. O policial guardião se aproximou de mim e eu disse: “- estou com ela!” (apontando a Mulher Clássica). Ele feliz, suspirou aliviado e contou, discretamente à policial. Em seguida me perguntou em voz baixa, “- quem é ela?”, “- o que aconteceu com ela?”. Eu disse, com um gesto de quem procura poupar o outro, que não queria falar sobre isso ali, diante dela. O policial compreendeu e me perguntou o que eu era dela. Menti e disse: prima. Não queria mentir, tínhamos nossa regra. Minha cabeça raciocinava como uma máquina em pleno funcionamento. Pensei que se dissesse amiga, o que seria a verdade, eles talvez não me permitissem ser responsável por ela e quisessem telefone ou qualquer coisa que trouxesse um parente dela ao local, o que nos obrigaria a revelar a pesquisa teatral. Ao mesmo tempo em que eu acabava de passar de infiltrada para interferente, pensava que deveríamos manter a interferência até que os policiais se fossem, portanto, tinha de convencê-los que poderiam confiar em mim. Então, em segundos, escolhi a mentira e escolhi também despistá-los. Quando chegamos à Rua eu disse à Mulher Clássica, com muita delicadeza: “- vamos Dedê” e ela, compreendendo, pegou na minha mão e acenou com a cabeça, sorrindo. A policial emocionada disse também sorrindo “ – ela é linda!”. Seguimos. Os policiais se despediram e voltaram ao seu posto, próximo à entrada do túnel. Seguimos mais uns passos e eles se aproximaram de nós mais uma vez, perguntando se havia algum problema. Respondi que não, que aquele era o tempo dela. A policial disse que a chamássemos se houvesse qualquer problema porque “- tem gente que não entende uma situação dessa”. Agradeci e sorri. Descemos a rua e seguimos pela rua de baixo. Lá permanecemos algum tempo admirando a cidade enquanto a Mulher Clássica era admirada pela cidade. Na semana seguinte voltamos com a mesma figura, mas desta vez, assumidamente acompanhada por sua “prima”. Uma Mulher séria, vestida com sobriedade e de um modo discreto, porém, bem atual. As duas caminhavam juntas, próximas. Neste dia fomos todos surpreendidos por uma platéia que se formou do lado de fora do túnel. As pessoas comentavam aquele acontecimento, trocando afetos entre si, encantadas, tentando adivinhar do que se tratava, ao mesmo tempo que abandonavam qualquer definição sobre o que se passava, para admirar a Mulher. Era como se houvesse uma aparição, à qual, de alguma maneira, todas aquelas pessoas estavam ligadas. Os policiais, que ficavam do lado do bairro e não eram os mesmos, desta vez nem nos viram chegar. Assim terminamos esta fase do projeto que era dedicado ao estudo do espectador e seu envolvimento com o mundo sensível, um mundo proposto pela arte, que recodificava a vida ordinária iluminando o extraordinário nas ruas, às vezes tão próximo e às vezes tão distante de nós. Não dissemos nenhuma vez que era teatro, mas também nunca escondemos que o fosse. Isto pouco importava, o que estudávamos era como capturar o interesse do espectador, a ponto de fazê-lo criar suas histórias e emocionar-se com elas.

Diretora e pesquisadora teatral do Barracão Teatro – Espaço de Investigação e Criação Teatral.
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