Olhares obscenos sobre a Luna Lunera
Por: 
Nina Caetano
Postado em: 
Fevereiro 4, 2011

Os atores se aquecem. Seus corpos brincam/dançam no espaço. O público entra. Primeiro sinal: uma carta de Caio. Os atores ajudam o público a se acomodar. Eles se preparam. Revezam-se ao microfone. Pequenas pílulas do que virá depois. Assim começa Aqueles dois, espetáculo da Luna Lunera em cartaz no Galpão Cine Horto até março. Corte. Tempo.

            Teatro Francisco Nunes. No palco, centenas de garrafas pet, cheias (ou vazias) de líquidos coloridos, cobrem o chão. Os atores, espalhados, parecem se aquecer. Ou já é cena? Em Cortiços, último espetáculo da companhia, dirigido pelo coreógrafo Tuca Pinheiro e apresentado durante o Verão Arte Contemporânea 2009, os limites entre a cena e o processo também são tênues. Como são tênues os limites entre teatro e dança, entre corpos e texto. Corte. Tempo.

            Em Aqueles dois, as narrativas permeam todo o trabalho. São várias as camadas dessa textura (texto, obra, história?) e instâncias de atuação. Revezam-se personagens, narradores, atores narradores e os atores criadores dessa tessitura. Na peça, os quatro atores/diretores revezam-se, os corpos em contato, para compor esses dois homens, mas não só. A história de dois homens – almas especiais num deserto de almas – mistura-se ao processo de criação da obra. O processo está ali e se desenvolve aos olhos do espectador. Texturas. A obra não está sozinha.

            Raul e Saul confundem-se com seus criadores. Confundem-se gostos e almas.  Quais discos são de Saul (ou Raul?), quais são do ator? É o pássaro Gardel quem desafina na última nota ou é o ator que empresta seu assovio? A cena vai sendo tecida entre os fragmentos da obra de Caio e a leitura que se faz dela. Vemos o encontro no café de todo dia. A rotina da repartição. Os filmes que os unem (são Raul e Saul que gostam de Almodóvar ou são os atores?). O que não vemos, eles nos contam. Escolhem trechos do conto, revelam seus pensamentos/posições sobre as personagens. Dedicam o dia de espetáculo a alguém. Eles sempre dedicam. No dia em que vi (durante o Festival Internacional de São José do Rio Preto, no qual foi calorosamente recebido), o espetáculo foi dedicado a Roberta Carreri e Torgeir Wethal, companheiros de Eugênio Barba e é Barba quem diz: será ação tudo aquilo que atingir o espectador em sua sinestesia ou compreensão. A dramaturgia nada mais é do que isso. Composição de ações e o texto, nada mais que tecido, trama, tessitura. Aquilo que atinge não só o espectador, mas o criador engajado na obra.

            Como em Aqueles dois, Cortiços também tem, como ponto de partida, uma obra literária. As referências ao texto naturalista perpassam toda a cena, mas esta não é uma transcriação teatral da obra de Aluísio Azevedo. Do mesmo modo que no espetáculo anterior, a dramaturgia, em Cortiços, é tecida das relações entre os atuantes e do olhar que têm sobre a obra de partida. Mais do que uma adaptação, a cena é um comentário. Aqui também as personagens se confundirão com seus criadores. Não há compromisso em contar a sua história, em desenvolver suas trajetórias. Aliás, as personagens que vemos na obra literária, aqui são figuras, imagens, impressões na superfície dos corpos dos atuantes. As personagens, em pedaços, fragmentos, perpassam suas narrativas, roupas, objetos, relações. E essas preenchem a cena. As músicas, danças, brincadeiras. O jogo de máscaras, de representações. E isso me faz voltar, para finalizar essa breve leitura, a Aqueles dois.

            No início, um dos atores, Odilon, diz as palavras de Caio: as pessoas reclamam que eu transformo em palavras todo o meu processo mental, “processo mental”, é assim que eles falam, e eu acho engraçado.  E que isso assusta as pessoas, que é preciso disfarçar, enganar, mentir, esconder e eu não queria que fosse assim. Queria que as coisas fossem mais simples, mais claras, mais limpas.  E o ator continua: Caio Fernando Abreu, Carta pra além do muro, página 249. Eu não lembro o nome do livro, da edição, mas a página eu nunca esqueci. Página 249. Lembrei-me disso porque não posso deixar de mencionar o que me parece ser a questão fundamental que move a criação dessa obra (mas também da seguinte): a relação entre as representações sociais e teatrais. Porque aqui tocamos nas máscaras, fingimentos e preconceitos. Tocamos no olhar do outro. Eu disse que o processo se desenvolve aos olhos do espectador. Sob esse olhar obsceno. Como são obscenos os olhos vazados, sem íris nem pupilas que nos olham no final, desenhos colocados na parede. Olhos vazados, sem expressão nem sentimento. Olhos incapazes de ver para além das imagens que já conhece. Das representações que já domina. Dos rótulos que propaga. E que serão infelizes. Se deus quiser.

           

 

  

Professora assistente de Dramaturgia do Departamento de Artes Cênicas da UFOP, dramaturga e pesquisadora.
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