O tempo, o gelo e o drama
Por: 
Nina Caetano
Postado em: 
Fevereiro 4, 2011

Primeiro de abril. Galpão Cine Horto. Platéia lotada. Dir-se-ia uma estréia. Mas não era. Estávamos ali para assistir à apresentação de uma obra em processo de construção, fruto da investigação conjunta de dois jovens – e importantes – grupos da cena brasileira: o mineiro Espanca! e o paulista Grupo XIX. A parceria, iniciada em 2007 com o ACTO 1, projeto de intercâmbio entre os dois grupos e o curitibano Cia. Brasileira, se desdobrou em uma residência artística de 3 meses do grupo mineiro na sede do grupo paulista para o exercício de invenção que resultou em Barco de Gelo. Ao adentrarmos o teatro, os atores de ambos os grupos – todos de branco – e o diretor (Luiz Fernando Marques, este, do Grupo XIX) nos recebem em meio à euforia geral e à acomodação da imensa platéia pela produção da casa. Afinal, estávamos em uma espécie de ensaio aberto, momento de compartilhamento com o público do trabalho, para um posterior debate. Prática constante do Grupo XIX, a abertura do processo de criação ao espectador ocorre desde o primeiro mês de trabalho e perpassa todas as etapas de criação, das primeiras pesquisas ao resultado final. O diretor anuncia o propósito do encontro e pede ao técnico de som que solte o spot. A atriz Janaína Leite, que inicia o trabalho, se dirige para o cenário todo roxo, colocado em um ângulo enviesado em relação ao público. O estranhamento já começava ali. Ela aguarda, seis taças de champagne penduradas em seus dedos. Alguém bate à porta. Ela parece não ouvir. Alguns segundos depois, ela reage. O tempo está em delay. Principal recurso dramatúrgico da cena/exercício, esse atraso/descompasso temporal marcará o descompasso das relações entre os personagens que vemos em cena. O casal, o amigo eufórico e o potencial suicida – talvez o único para quem a percepção clara da realidade e do presente torne a vida difícil de ser vivida. O tempo, metáfora maior do tema/situação que se desenrola no palco, é magistralmente orquestrado pelo contraste/curto-circuito que ocorre entre o tempo da “realidade”, localizada em um futuro longíquo, 2440, e o tempo da ilusão: a festa do réveillon – imagem concreta de um futuro que só pode vir como projeção – culmina na apresentação de um trecho de As três irmãs, de Tchekov, por uma trupe de teatro. Único momento em que as relações se dão no mesmo tempo, no agora, no presente, o teatro – artefato arcaico, obsoleto e anacrônico já hoje – contrasta com uma atualidade fragmentada e desconexa, tornando visível o que estava latente nas relações marcadas pelo delay. Barco de Gelo foi uma grata surpresa. Não que seja surpresa a qualidade inerente aos dois coletivos teatrais, mas a força de provocação com que a estrutura mínima dessa dramaturgia tecida colaborativamente e ainda em processo de criação e aprofundamento, concretiza as imagens/idéias teatrais germinadas nesse encontro de criadores que revisitam suas formas e métodos, que desejam o risco. Essa estrutura mínima – futuro e passado, arte e vida, tema inscrito na linguagem – é provocadora na medida em que não se contenta em reproduzir formas já conquistadas, mas, principalmente, é provocadora para os sentidos daqueles que estão acostumados a pensar o teatro em termos de drama, de desenvolvimentos causais e de sentidos amarrados e prontos. Não, nada aqui será entregue de graça. Aqui, como o gelo que traduz tão poeticamente a idéia de um presente que está e que já não está lá, a linguagem desliza, subtrai-se e fura a representação porque na cena contemporânea o verbo já não tem a primazia de produzir poesia.

  

Professora assistente de Dramaturgia do Departamento de Artes Cênicas da UFOP, dramaturga e pesquisadora.
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