Mulheres à beira
Por: 
Nina Caetano
Postado em: 
Fevereiro 4, 2011

Uma mulher, de camisola e pegnoir (ainda se usa esse termo?), está sentada a uma mesa. Ela recorta e picota páginas de uma revista enquanto o público entra. Estamos em uma segunda-feira de março, dia inusitado para se ir ao teatro. Apesar disso, a platéia está cheia. Atrás de mim, duas mulheres falam sem parar, talvez incomodadas por essa ação fora do tempo. Afinal, o espetáculo ainda não começou... Ou já? A mulher – com um cortador de papel – picota no ritmo da música meio bolero meio tango que soa. Aliás, a música aqui será muito importante. Por vezes, seus gestos se tornam furiosos. A música termina. O palco escurece. De uma geladeira – no fundo, à direita do palco – sai Norma, que faz espuma com uma batedeira enquanto, em off, soam versos: “tu me quieres blanca...”. Os versos acabam e a batedeira é desligada. Ela se anuncia: várias em uma, vilãs de contos de fadas, arquétipo da esposa que já foi princesa um dia. À esquerda, uma porta se abre e dela sai Rita: loira, de salto, corpete e liga. De costas para a platéia, maleta na mão, rosquinha no dedo indicador, ela se olha no espelho e coloca sua carta no jogo. Ela é a cobiçada, a mulher padrão. Para isso vomita e emagrece. E até descolore os seus cabelos. Para se tornar mais padrão. À direita, outra porta se abre e sai Gigita que, de tailleur e com um inacreditável penteado para o alto, se anuncia: ela é a mulher que não se casou, que usa pílula. Ela não se mira no exemplo das mulheres de Atenas, no entanto não queima soutiens: afinal, é artigo de luxo, absolutamente caro. O foco volta ao centro do palco, onde a mulher que picotava revistas está sentada. Agora é a vez de Teresa: mulher comum, de classe média, ela esconde um segredo e parece deprimida. Ela toma remédios para agüentar o dia e será dela um dos momentos mais pungentes da peça. Os avatares estão colocados. Elisabeth está atrasada, montagem da Primeira Campainha, traz em cena quatro ótimas atrizes: quem assistiu Quando o peixe salta (Oficinão Galpão Cine Horto 2006), Pindorama 171 (Cena curta que estreou o projeto Cena Espetáculo em 2009) ou a cena curta Sobre dinossauros, galinhas e dragões (Festival de Cenas Curtas de 2008), já as viu em ação. Aqui, em Elisabeth, elas jogam dentro de um universo quase almodovariano. Regra n° 1: os dados já foram jogados. O café já está na mesa. Crônica estabelecida. Regra n° 2: uma proposta de leitura e uma confissão para cada uma. Uma de cada vez. Regra n° 3: se é a sua primeira vez no clube do livro: você tem que chorar. Tendo o RPG (role playing game) como ponto de partida para a criação, a montagem tem como ambiente de jogo uma sessão de chá/terapia/clube do livro e traz diversas referências pop, como o já mencionado cinema de Almodóvar e as canções de Abba e Queen (impagável a cena da banda de eletrodomésticos – ao som de Bohemian Rapsody – ao final da qual a vassoura é quebrada e queimada). Recheada de citações (muitas delas ligadas à psicanálise), a dramaturgia joga com o distanciamento e o sarcasmo, principalmente nas citações diretas, como as da jogadora/personagem Gigita ou do mestre do jogo que, por meio de trechos sobre a psicologia feminina, organiza a mediação das disputas/relações e dos diálogos que ocorrem entre elas. Apesar disso, na peça o masculino será um mero acessório. A montagem, de concepção colaborativa, tem algo de inusitado e provocativo, quase subversivo, que já se encontrava presente nos trabalhos anteriores. Beirando o absurdo, quase carnavalesca, a peça coloca, de maneira crítica, algumas questões prementes do nosso tempo: a tirania do corpo, o papel social da mulher, as relações humanas. O que está em pauta, é o feminino. Em um jogo quase coreográfico, as mulheres vão desfilando suas questões e desenrolando situações, que vão do cômico ao pungente. A cena da confissão de Teresa é dotada de uma profundidade e emoção que exigem da atriz – Marina Arthuzzi, que também assina a direção – bastante sobriedade no tratamento. Não à toa, ela foi indicada como melhor atriz ao Prêmio SESC/SATED. Elisabeth está atrasada é uma ácida e deliciosa tragicomédia, absolutamente conectada ao pulso da contemporaneidade.

  

Professora assistente de Dramaturgia do Departamento de Artes Cênicas da UFOP, dramaturga e pesquisadora.
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