Improvisar – espaço de possibilidades
Por: 
Mariana Muniz
Postado em: 
Fevereiro 4, 2011

Atualmente, a palavra improvisação adquiriu uma significação despectiva que não lhe pertence. Dizer na linguagem cotidiana que algo é improvisado é dizer que carece preparação, que é caótico e sem rigor. Pode ser que, para alguns apressados, improvisar seja algo muito recente que nada tem a ver com a “Grande Tradição Teatral”. Entretanto, improvisação e teatro quase sempre andaram unidos, tornando-se, em alguns momentos da história, sinônimos. Segundo o Diccionario da Oxford University:

 

“Muito da história do teatro se centrou na habilidade do ator de improvisar a partir de um tema dado, como nas cenas cômicas do mistery play, nas antigas farsas e comédias oriundas da tradição popular e também das produções da Commedia dell`arte. (...) Em reação ao texto, a influência do Dadá e do surrealismo encorajou a atividade espontânea e rejeitou o que esse chamou  “work of art”. Essa filosofia resultou na emergência da criação coletiva baseada inteiramente na improvisação de um grupo a partir de uma pauta mínima. Daí se desenvolveu o happening e eventos similares que incorporavam as reações da audiência criando uma experiência teatral única, considerada por muitos preferível à repetição controlada da peça escrita.”[1]

 

        Ampliando esta contextualização, o Dictionaire encyclopédique du théâtre reflete sobre o interesse contemporâneo da improvisação:

 

“O interesse contemporâneo pela improvisaçao se desenvolveu nos anos 60. Improvisadores se reportaram às ideologias espontaneistas, ao desejo, talvez naif, de inventar algumas coisas a partir de nada. (...) Improvisar apareceu como uma forma de se opor ao teatro de texto, de escapar ao modelo de uma representaçao sentida como muito literária. »[2]

 

Mas, é realmente possível criar a partir do nada? Segundo Brook, ator, espaço e público são  esenciais para a existência do fato teatral, portanto, para haver teatro necessitamos da interação estes elementos. Sendo assim, como podemos dizer que partimos do nada ao improvisar ? O ator é seu corpo, sua voz, suas idéias, suas vivências, suas emoções e seus desejos, o público também o é e interage mesmo quando apenas observa, frui da obra teatral. O espaço, por sua vez, é o lugar do encontro, onde tudo é possível porque, supostamente, ainda nao há « nada ». Assim, quando se diz “criação a partir do nada”, refere-se apenas a ausência de um roteiro e texto pré-estabelecido, pois sempre há algo  a partir do qual a cena se constrói no aqui e no agora, no jogo vivo entre atores, espaço e público.

 

Esse jogo é conduzido pelo ator, mas não se estabelece somento por ele. O público é co-criador da cena, mesmo que não se mova, que não fale, que não se expresse diretamente. Ainda assim, só existe cena porque o público está alí observando, e observar é um verbo e, portanto, uma ação. É para o público e com o público que o teatro improvisado é criado. Uma criação que é efêmera por excelência, pois se consome a medida em que é construida.

 

Assim, o espaço da improvisação é o espaço da potencialidade. A improvisação, pode ser tudo e nada, pode ser boa ou ruim, e o que for, será criado em cumplicidade com o público uma única vez. Não será por isso que o homem contemporâneo volta seus olhos e desejos para a improvisaçao ? Talvez neste espaço de potencialidades, de construção, tenhamos a sensação, real ou ilusória, de estar criando algo e não apenas reproduzindo velhas formas. O ator deixa de ser intérprete de palavras alheias e passa a dizer as próprias e o público sai do escurinho confortável da platéia e se transforma em co-criador da cena. Segundo Peter Brook em seu livro Ponto de Mudança::

 

“Neste sentido improvisar significa que os atores se colocarão frente ao público preparados para produzir um diálogo e não uma demonstração. (…) Também o público percebe isso de imediato, compreende que participa ativamente no desenvolvimento, no crescimento da ação, e se surpreende gratamente ao descobrir que é parte integrante do evento.”[3]

 

             Para que o jogo entre público e atores conquiste e mantenha o interesse, é fundamental que os improvisadores sejam portadores de uma extensa bagagem cultural e que possuam técnicas bem estabelecidas através das quais seu universo pessoal possa aflorar na criação de uma cena improvisada. Ao contrário do sentido comum, a improvisação requer ordem e rigor, pois, somente se tenho algo ordenado e fixo sobre o qual me apoiar é que posso me arriscar no caos da criação instantânea.

            Para ser um bom improvisador, o ator precisa saber muito bem do ofício teatral em todas as suas funções: atuação, direção, dramaturgia, iluminação, etc. Mais do que apenas intérprete, o ator-improvisador é o criador da cena, ele é, antes de tudo, um excelente contador de histórias, daqueles que conseguem captar nossa atenção e fazer com que esqueçamos que tudo está sendo criado ali naquele momento. Para o ator, improvisar é ter a coragem de se lançar no vazio, é contar constantemente com a possibilidade do erro, do fracasso, é trazer o público como cúmplice e criar com ele e para ele. Ser público de um espetáculo improvisado é estar disposto a entrar no processo de criação e desfrutar dos erros tanto quanto dos acertos, é aceitar que o que ali acontecer será único, construído através da interação irrepetível entre aqueles atores, aquele público e aquele espaço.

 

Bibiliografia:

 

MUNIZ, M. La improvisación como espectáculo – principales experimentos y técnicas de formación del actor-improvisador”. Tese Doutoral. Universidad de Alcalá, 2005.


[1]The Oxford Companion to the Theatre.Edited by Phillis Hartnol. Oxford University Press. Oxford, 1983. Pg. 409. Tradução da autora.

[2]CORVIN, Muchel. Dictionnaire encyclopédique du thèâtre. Larousse. Québec, 1998. Pg. 825-826. Tradução da autora.

[3]BROOK, Peter. Provocaciones. 40 años de exploración en el teatro. Fausto Ediciones. Buenos Aires, 1989. pp. 128-129

  

Diretora teatral; Professora da Graduação em Teatro e da Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG.
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