DORAS – encontro para mulheres artistas
Por: 
Luísa Bahia
Postado em: 
Fevereiro 23, 2018

"A mulher deve ter parte com o mar."
-- Anelis Assumpção


Imagine o mar. Imagine um bando de mulheres, transformando-se em mar. Dando poder à sabedoria do corpo e da voz que carregam. Liquefazendo-se em, desde a onda mais leve, maresia clara, até o movimento mais revolto: pororoca, maremoto, tufão barulhento a muitos km/h.. Imagine essas mesmas figuras sendo árvore de raiz funda e tronco leve, água de poça, de enxurrada, rio, brisa, rajada de vento e tufão. Encolhidas no útero e expandidas na via láctea. Seres em abalos tímidos, sísmicos, cósmicos. Agora imagine o discurso urgente de cada uma delas. Os discursos urgentes de 2, 10, 15, 23, 37, 45, 50 mulheres! Imagine uma Primavera! E então como seria se dissessem essas palavras com aço entre os dentes, com uma fogueira no peito, os pés de gelo e um diamante na testa? E um coro de gozos, como seriam orgasmos múltiplos orquestrados? E um movimento/barulho de bicho, puro instinto? Uma dança da paixão, um sentimento desmedido de mundo, por alguém, causa, ideia, sabor, som, memória... Uma dança Anima-Mundi? É possível vislumbrar o conteúdo de uma carta de resistência? É possível conceber uma odisseia, expedição de si, diálogos, dramaturgias do tempo, do espaço, do som e da luz? Enxergar a raiz da voz e cantar para o outro lado do rio? Imagine agora algo quente, incontrolável, uma fogueira, uma oferta de inventos: músicas, danças, poemas, gravuras, jogo de cartas, pulseiras, cenas, comidas, segredos, performances, risos, lágrimas, loucura, um brinde “nasceu uma mãe e não pode morrer uma mulher”, e diante de um sonoro “estamos vivas!”, a celebração do acolhimento, da coragem, dos riscos, da partilha, do movimento político, poético, sempre indo e vindo, indo e vindo, indo e vindo... Feito um grande mar vermelho, uma fogueira diante da lua cheia, uma aldeia livre!


A descrição se refere às oficinas DORAS – encontro para mulheres artistas, que conduzi em 4 edições ao longo de 2017 em Belo Horizonte, para 50 artistas de teatro, dança, música, performance, poesia, literatura e artes visuais de diferentes perfis. O projeto surgiu do meu desejo em encontrar com outras mulheres artistas, intercambiar visões de mundo, procedimentos de criação e instigar-nos a uma expressão LIVRE dando forma aos nossos DISCURSOS URGENTES e aos incômodos sofridos pelas mais diversas formas de opressão às quais a mulher está submetida.


A convite da programação do Teatro Marília para o mês da mulher, realizei ali uma pequena residência, apresentando-me com o meu Solo Teatral RISCO e conduzindo a 1ª edição da oficina DORAS, ofertada gratuitamente a 20 mulheres. Como ponto de partida foram abordados os elementos da composição do Espetáculo e de reflexões realizadas no meu Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Teatro da EBA/UFMG: “RISCO – uma experiência sobre o valor imagético e polifônico da criação teatral”. A peça estreou em Belo Horizonte em 2016, teve a dramaturgia de minha autoria publicada na Coletânea Janela de Dramaturgia da Editora Perspectiva no mesmo ano e contou com a co-direção de Ricardo Alves Jr e as colaborações de Luiz Dias, Carolina Amares, Raísa Campos, Lucas Pradino e Laura Freitas. RISCO é a odisseia contemporânea e delirante de Dora por ondas marítimas, imagens fantásticas e alucinações sonoras, numa espécie de peça-show. Dora, mulher que quer ser livre e a todo custo riscar a própria história, batizou a experiência da oficina DORAS. Os múltiplos sentidos da concepção de VOZ foram trabalhados em dinâmicas de movimento; som; escrita; cena e manifestação da presença no mundo. Práticas imagéticas e palavras-guias como escuta, paixão, desnudar-se, estrangeirar-se, delírio, mar e risco foram nortes para essa experiência por diversas dramaturgias. No ato da inscrição elas responderam à seguinte pergunta: “Mulher, qual é o seu discurso urgente para hoje? ”. As diferentes escritas foram consideradas no momento do meu planejamento de cada edição e serviram de material para as vivências criativas.


O primeiro grande eixo do trabalho foi a diálogo entre ARTE e VIDA, partindo da condição da mulher artista brasileira e todos os atravessamentos aos quais ela está sujeita, para se pensar a criação contemporânea. Mulheres de 19 a 63 anos, brancas, negras, pardas, cis, trans, de diferentes condições sócio econômicas, estudantes, trabalhadoras de dupla jornada, aposentadas, mães, avós e artistas de várias áreas, compartilharam suas ofertas artísticas num ambiente acolhedor, eco de uma Primavera Feminista, inserida numa realidade patriarcal extremamente machista.


O segundo eixo do trabalho se referiu à POLIFONIA, articulando os vários discursos que compõem a cena, o hibridismo entre linguagens artísticas e as múltiplas concepções da ideia de VOZ: que é texto, corporeidade, canto, fala, ruído, cena e presença.


Como referências teórico-práticas estiveram presentes a metodologia da artista italiana Francesca Della Monica e seus princípios sobre identidade vocal, dimensão gestual, imagética e dionisíaca da voz; conceitos da pesquisadora Tatiana Motta Lima sobre o ator contemporâneo e sua escuta; a atuação polifônica de Ernani Maletta; os pensamentos sobre visceralidade do diretor Valère Novarina, elementos do trabalho do diretor e dramaturgo Márcio Abreu, da atriz e diretora Carolina Bianchi e estudos da poética dos elementos de Gaston Bachelard. Como inspirações foram utilizados poemas de Julia Hansen, Ana Martins Marques, Wislawa Szymborska e músicas de Tetê Spindola, Omara Pontuondo, Janis Joplin, Dona Jandira, Anelis Assupção, Maria Bethania, dentre outras.


As dinâmicas impulsionaram as mulheres a uma expressão livre e instintiva e os corpos a serem delirantes, bestiais, eróticos, explosivos e apaixonados, concebendo a PAIXÃO de maneira ampla, não só direcionada a alguém, mas a uma causa, memória, sensação, sendo parte da ANIMA MUNDI (alma do mundo). Investigamos a ruptura com o estereótipo do corpo da mulher como objeto de desejo, para nos tornarmos sujeitas desejantes, encarnando nossas paixões.


As imagens mentais e materiais foram nortes para os estudos do corpo, da voz, da escrita e da cena, partindo do conceito de SER ESTRANGEIRA, de se experimentar como água do rio, do mar, fogueira, folha, árvore, rajada de vento, brisa, brasa, aço e gelo. Além da metamorfose em elementos naturais, houve o exercício de se “transformar” na outra, num importante movimento de contaminação por meio da troca dos discursos urgentes, intercambiando formas de ler e agir no mundo. Estudamos uma oportunidade de diálogo de subjetividades e um exercício necessário de alteridade dentro da ampla diversidade dos perfis das participantes.


No trabalho da CORPORALIDADE tocamos uma a outra para acordar não só a pele, os músculos, nervos e líquidos, mas também para ativar memórias, imaginações, associações e antenas de percepção. Observamos e estudamos objetos vegetais, minerais e seus fenômenos de voo, moldamos o corpo uma da outra como numa escultura a partir da observação. Os estudos dos elementos naturais possibilitaram aos corpos outra materialidade, próxima da água, do fogo, do ar, das plantas, da terra além de abrigar a loucura, o instinto e a paixão, livre de modelos.


Nas dinâmicas da VOCALIDADE criamos um coro de orgasmos, desconstruindo comicamente a rigidez de um coral padrão. Produzimos paisagens sonoras de natureza, de sons da cidade, ampliando as possibilidades musicais com a presença acústica de barulhos e ruídos. Cantamos e realizamos exercícios focando a espacialidade, a interlocução e a eloquência. Estudamos o texto e a fala dos discursos urgentes associados à várias imagens: como se estivéssemos com uma fogueira no peito, um diamante na testa, os pés de gelo e rosas nos ombros, prestando atenção às sutis diferenças na qualidade de cada presença.


A prática da ESCRITA se concentrou na ideia de ação. “O que acontecerá na dramaturgia criada por cada uma? ” foi a pergunta que fiz a elas. Além dos textos que foram criados (diálogos, cartas, e prólogos apresentando personagens), trabalhamos as rubricas e também os outros discursos componentes da cena: dramaturgia do espaço, da luz, da materialidade do cenário e figurino, da sonoridade e corporalidade das artistas etc. Essa concepção polifônica da escrita dramatúrgica contemporânea, que não é mais textocêntrica, aproxima a criadora da obra como um todo e rompe com as fronteiras de cada eixo da composição teatral ou performática.


Ao final de cada dia de oficina, após as experiências com o corpo, com a voz e a escrita, as artistas eram divididas em pequenos grupos e a elas era entregue um programa, próximo ao roteiro de uma performance. Nele constavam elementos do que havíamos feito anteriormente para que elas pudessem conjugá-los, tecendo uma DRAMATURGIA que seria posteriormente levada à CENA. Exemplo de itens sugeridos para o roteiro: uma dança, dois discursos urgentes, uma paisagem sonora, uma carta, uma música e um elemento-surpresa. Elas poderiam combinar esses itens na ordem que quisessem, podendo acrescentar coisas também. Depois de elaborada, a dramaturgia era ensaiada e encenada.


O RISCO de lançar-se numa prática tão íntima e a URGÊNCIA de se criar em pouco tempo foram dois pontos presentes em todas as oficinas. Sempre após um pequeno temor, barreiras se rompiam e aos poucos elas iam confiando na própria ideia e se entregando às propostas umas das outras. As mulheres, gradativamente, se permitiam à ficção, ao estrangeirar-se, saindo um pouco de si e ao mesmo tempo encarnando a própria presença no mundo. Pudemos compreender, por meio das diversas práticas, sobre como conjugar os discursos e a linguagem, dialogando forma e conteúdo como uma dupla inseparável.


A ESCUTA foi um princípio norteador fundamental para o encontro DORAS. Inspirada na concepção de Tatiana Motta Lima pudemos percebê-la como atravessamento pelos fluxos da vida e comunhão com o ambiente ao redor. Sua presença fez-se necessária, contrapeso para a balança dos discursos urgentes não tombar. Se há espaço para palavras ao vento, o dobro de 'onde e quando' é necessário para que elas reverberem. A escuta permite o contato, a relação com os elementos materiais da cena (exemplo: figurino, cenário, iluminação, trilha sonora, outros atores) e os imateriais (cheiros, sensações, sentimentos, memórias). É preciso atenção para ouvir o silêncio, o estrondo, a canção ou o choro. Ela representa o espaço a outra, ao corpo da outra, ao seu movimento e manifestação. É a atenção para ouvir as imagens criadas pelas palavras, e pelo mistério criado pelas imagens. Escutar é a habilidade de se abrir, sem precisar traduzir. A verdadeira escuta utopicamente total é aquela em que o ouvinte, diante de uma voz seja qual for a sua manifestação, não sofra um movimento interno de contração, negação e encolhimento. Pensando a manifestação das várias vozes no mundo, é imprescindível pesquisar e exercitar a ESCUTA. Além da prática desse importante vetor durante as dinâmicas das oficinas, foram de fundamental importância as rodas inicial e final de todos os encontros. Nelas pudemos perceber nossas perguntas, desabafar satisfações e angústias, rir, chorar, trocar aprendizados e agradecimentos. Como condutora ressalto a relevância de conhecer as urgências de cada uma, preenchidas na ficha de inscrição. Ouvindo o mundo de cada uma pude experimentar a composição de um mundo nosso, como uma espécie de pequena aldeia.


A provocação para o DESNUDAR-SE, simbolicamente, foi essencial para que cada mulher se revelasse, se entregasse, retornando a si, às suas profundezas, às zonas de dificuldade e conflito que se articulam com as capacidades artísticas e os bloqueios pessoais. Como diria Francesca Della Mônica, “é preciso romper a pele da serpente” para que outra natureza surja. É preciso se escavar, desenterrar, fazer surgir, se despir de um escudo protetor para que uma natureza criativa intempestiva e poderosa possa vir à tona. Em seu texto Carta aos atores, Valère Novarina traz de maneira irreverente a força que existe nessa decomposição do sujeito, colocando-nos a necessidade da entrega do ator/artista para um trabalho mais próximo da escavação de um fóssil do que da construção de um edifício.


O ator não executa mas se executa, não interpreta mas se penetra, não raciocina mas faz todo o seu corpo ressoar. Não constrói seu personagem mas decompõe seu corpo civil ordenado, suicida-se. Não se trata de composição de personagem mas de decomposição de pessoa, decomposição do homem ali sobre o palco. O teatro só é interessante quando se vê o corpo normal de quem (tenso, estacionado, defendido) se desfazer e o outro corpo sair brincalhão malvado querendo brincar de quê. É a verdadeira carne do ator que deve aparecer. A gente vê o corpo dos atores, das atorezas, e é isso que é bonito; quando a verdadeira carne mortal sexuada e linguada é mostrada a esse público de castigados que pensam em língua francesa eterna e castrada. O ator que representa de verdade, que representa a fundo, que se representa do fundo – e só isso vale a pena no teatro (...).
(NOVARINA, 2009, p.23)¹


Para essa arqueologia ou decomposição de cada uma foi necessário muita confiança e acolhimento do grupo. De maneira sutil e surpreendentemente rápida, um pacto ético de escuta superior ao julgamento foi firmado. Para além de investigação e invenção artística, relevantes atos humanos estavam sendo postos em cena. E nesse processo, por momentos, nos fragilizamos, nos perdemos, elas em sua entrega e eu no processo de provocação. A condução da natureza humana é bem mais complexa do que da habilidade técnica. E pudemos perceber o quão imbricadas elas estão e como é delicado e ao mesmo tempo voraz o processo de criação. Há sempre um jogo de contrastes: luz/sombra, medo/coragem, guerra/voo livre. Se dar conta das próprias cavernas, travas, instintos pode parecer extremamente angustiante, mas é um processo também revelador do nosso lado ridículo, cômico, brincalhão e delirante. No momento final das performances era possível perceber em todas nós uma certa dose de alívio e plenitude.


DORAS – encontro para mulheres artistas é uma proposta de intercâmbio de saberes e presenças, e não unicamente uma oportunidade de transmissão de conhecimentos técnicos sobre voz, corpo, escrita e cena. Os princípios norteadores das várias dramaturgias, têm sido trabalhados com cuidado e profundidade, e, para além disso é necessário a abertura para o arrebatamento, a entrega para o próximo risco e a transformação inerente a ele. Na concepção dessa oficina de práticas de criação em arte contemporânea, arte e vida se misturam, assim como as fronteiras entre uma e outra arte se dissolvem para encontrarmos o gesto criativo necessário.


As mulheres participantes até então apresentaram uma escuta potente em relação aos elementos materiais e imateriais que envolvem a cena, mas especialmente, uma atenção precisa às vozes umas das outras. Uma rede de acolhimento e cooperação foi criada e elas se sentiram livres para se experimentar de outra forma, serem estrangeiras de si, se mostrarem frágeis e poderosas. A confiança na proposta permitiu que cada uma pudesse dar seu salto rumo à peculiar expressividade necessária, em diálogo com seu discurso mais urgente. Uma rede de convivência horizontal, com presenças diversas em contato sincero, permitindo a visibilidade umas das outras, tem sido criada e fortalecida a cada edição da oficina. Outros agrupamentos surgem dali e os saberes se multiplicam. Muitos ecos têm-se desenhados! Como condutora eu me curvo e agradeço pela confiança e entrega. A partilha do conhecimento tem sempre dois lados e eu muito tenho aprendido com o que irradia de cada uma das 50 DORAS. Um viva a esse encontro!


Imagine o mar. Imagine uma mulher diante do mar, em cima de uma tartaruga. Ali, parada, vendo as ondas indo e vindo, indo e vindo. Com uma sede de romper com o lugar ancestral da espera: no porto, no cais, na dúvida. Cercada por uma paisagem de nuvens, areia e sal. Os sons das gaivotas no alto e da água batendo nas rochas logo ali ou dentro do peito. Escute, escute a presença dela. Como se escuta o barulho do mar dentro de uma concha. Que em verdade é fluxo intenso de sangue indo e vindo, indo e vindo. Escute. O que essa mulher tem a dizer?



¹ NOVARINA, Valère. Carta aos atores e Para Loius de Funès. 3ª edição. Trad. Ângela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009, p. 23.


LINKS PARA OS VÍDEOS:
DORAS 1ª edição: http://bit.ly/2BC7ZtP
DORAS 2ª edição: http://bit.ly/2DOyAKm
DORAS 3ª edição: http://bit.ly/2rX6Y0b

Luísa Bahia (BH/MG) é atriz, cantora, diretora, dramaturga e professora formada em Teatro pela EBA/UFMG e pelo CEFART/ Palácio das Artes.
Centro de Pesquisa e Memória do Teatro do Galpão Cine Horto - Rua Pitangui, 3613 - Bairro Horto - Belo Horizonte - MG
Tel: 31 3481.5580 - portalprimeirosinal@gmail.com
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Os créditos das fotos do cabeçalho se encontram na seção Quem Somos.
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