A criança como conselheira em processos criativos realizados por adultos
Postado em: 
Outubro 15, 2015

"Sr. Produtor ou Diretor, por favor, perguntem minha opinião" – disse uma menina de 5 anos.

Em um vídeo de Juliee Project, chamado Comfortable: 50 People 1 Question, em livre tradução Confortável: 50 pessoas 1 questão, publicado no Youtube [1], no final do ano passado, os produtores convidaram 50 pessoas, entre adultos e crianças, para responderem uma simples pergunta: “Se você pudesse mudar uma coisa em seu corpo, o que seria?”.
Os adultos disseram: ? “Eu mudaria minha testa... Eu gostaria de ser mais alta... O inchaço do meu rosto... Minhas orelhas... As estrias que ganhei quando tive um bebê...”.
As crianças responderam: “Ahh... ter uma calda de sereia... Ter uma boca de tubarão (aí eu poderia comer um monte de coisa)... Gostaria de teletransportar o meu corpo... Orelhas extras e pontudas... Queria ter pernas de um guepardo (aí eu correria rápido como um deles)... Poderia ter asas, para eu poder voar...”
As conclusões do vídeo são para encorajar as pessoas a se sentirem confortáveis e confiantes em sua própria pele. No entanto meu ponto de análise não será esse. O meu questionamento gira em torno de tentar entender por que os produtores do vídeo perguntaram a mesma coisa para os adultos e para as crianças. Haveria a expectativa de que as crianças pudessem dar respostas surpreendentes sobre a mesma problemática? Em que medida a presença da criança é importante nas produções artísticas realizadas por adultos?
O fato é que nunca saberemos o que esperar da resposta de uma criança, e isto é o mais instigante, porque a criança sempre evocará o inusitado e o imprevisível: dois elementos que julgo serem muito importantes nos processos criativos contemporâneos, seja no cinema, seja no teatro.
Essas respostas inusitadas e imprevisíveis, que mostram um potencial criativo da mais alta classe, podem ser justificadas sob duas perspectivas: de um lado, temos o pensamento polimorfo da criança, segundo Merleau-Ponty, e do outro, a noção de criatividade, de Amit Goswami.
De acordo com o filósofo Merleau-Ponty (2006), “não devemos conceber a criança nem como um 'outro' absoluto nem como ‘o mesmo’ que nós, mas como polimorfa [...] não há mentalidade infantil, mas polimorfismo infantil” (2006, p. 468).
Esse polimorfismo sugere que a lógica do pensamento da criança não é a mesma do adulto. Ela não entende as coisas de forma regrada ou até mesmo literal. Na medida em que seu pensamento é polimorfo, a criança pode fazer diversas associações que buscam sua lógica própria. A lógica da criança (CRUVINEL, 2015).
Já a noção de criatividade, do físico quântico Amit Goswami (2012), é definida em duas categorias: a criatividade situacional e a criatividade fundamental.
Em um poema, Goswami resume sua teoria:

O que é criatividade?
O fazer de algo novo, todos concordamos.
Se aquilo que dá origem
Combina de maneira nova elementos já conhecidos,
então, criador, chame tua criatividade de situacional.

Só mesmo se a flor de tua criação
Desabrocha em novo contexto,
tua criatividade é fundamental.

(GOSWAMI, 2012, p. 81)

Podemos pensar na criatividade situacional utilizando o exemplo dado por Goswami, da máquina de vapor, invenção de James Watt, porque foi, a partir da percepção de que o bule de chá quente necessariamente levantava a tampa do bule, que Waltt pensou: “Se o vapor poderia fazer isso, por que não uma máquina?” (GOSWAMI, 2012, p. 72). Portanto, a criatividade situacional seria aquela em que combinamos contextos antigos, adicionando novo significado e valor.
Já a criatividade fundamental, de acordo com o físico, seria a manifestação de um novo significado, em um contexto novo, por meio de um processo que necessariamente envolverá a descontinuidade (GOSWAMI, 2012).
Minha percepção é de que a criatividade das crianças é fundamental porque elas conseguem criar novos contextos, novas brincadeiras, novas regras e novas formas de solução para um problema, sem necessariamente ter uma estrutura muito racional para o desenvolvimento delas; principalmente as que são muito novas e que não dominam ainda uma série de contextos e conhecimentos, para combinarem ideias antigas, gerando soluções novas. Destaco ainda a questão da descontinuidade que, a meu ver, está relacionada ao pensamento polimorfo da criança. Essa descontinuidade está no fato de as crianças terem uma resposta pronta – sempre – sem necessariamente ter a lógica dos adultos.
Ingrid Koudela, ao citar um trecho de um dos textos de Bertold Brecht, Histórias do Sr. Keuner, destaca a seguinte passagem, que dialoga com o conceito de criatividade fundamental de Goswami:

O Sr. Keuner observou o desenho de sua pequena sobrinha. Representava uma galinha que voava sobre um quintal. Por que sua galinha tem três pernas? Perguntou o Sr. Keuner. Galinhas não sabem voar, disse a pequena artista, por isso precisei de uma terceira perna para dar-lhe o impulso (BRECHT apud KOUDELA, 2010, p. 35-36).

Ainda que não seja um contexto lógico para o adulto, pois sabemos que uma perna a mais não fará a galinha voar. O que vemos é que, quando se trata de crianças, há sempre uma busca, por meio do brincar, da construção de novos contextos.
Nesse sentido, Goswami ressalta que, “em sua descoberta de novos contextos, artistas frequentemente saltam à frente de seu tempo” (2012, p. 70), citando a obra Guernica de Pablo Picasso, como grande exemplo de criatividade fundamental. “Gertudre Stein, olhando para suas pinturas, uma contemporânea de Picasso, reclamou com ele: ‘Suas figuras não parecem muito com seres humanos...'. Ao que Picasso respondeu: Não se preocupe, elas o são” (idem).
Portanto, o que me chama atenção é que há um consenso em reconhecer o potencial criativo das crianças. Ken Robinson (2010) afirma que Picasso já dizia que toda criança nasce artista. No entanto, considerando essa habilidade artística e a capacidade que a criança tem de mostrar sua criatividade (seja ela fundamental, seja situacional) em diversos meios e ambientes, parece-me que a presença da criança como conselheira, conforme o exemplo do vídeo citado, ainda é muito tímida no cinema e no teatro. Temos perguntando muito pouco a opinião das crianças sobre questões que envolvem os processos criativos dos adultos nas linguagens artísticas. Por quê? Esse vídeo não é inspirador? Ele não versa sobre esse lugar onde se localiza a criatividade das crianças por meio de suas respostas surpreendentes?
Penso que a presença da criança, em uma produção artística, pode se dar principalmente por meio de três formas: como espectadora, como atuante (ator, performer, jogador...) e como conselheira (criativa).
Sob a primeira forma, Flávio Desgranges já nos chamou atenção, em seu livro Pedagogia do Espectador (2010), para a seguinte questão: “Até quando trataremos a criança espectadora como participante 'café-com-leite' do evento teatral, alguém que está presente na brincadeira, mas não é convidado a brincar de fato?” (2010, p. 88) Ressaltando que é muito difícil formar espectadores, sem lhes oferecer um desafio estético efetivo.
Como atuantes, podemos pensar nos estudos sobre a criança-ator e a criança em cena (CRUVINEL, 2015), discutindo o que é específico no desenvolvimento do trabalho artístico que as crianças têm realizado no cinema e no teatro profissional; e, sobre a criança jogadora, podemos pensar nas investigações de Viola Spolin, com os jogos teatrais; ou ainda, sobre os estudos de Marina Marcondes Machado (2010), sobre a criança performer, em uma visão mais antropológica da atuação das crianças.
Já a criança como conselheira seria a forma de utilizar o potencial criativo das crianças para o desenvolvimento de produções artísticas realizadas por adultos por meio de um simples mecanismo: a consulta.
Imagino um laboratório de experimentação cênica em que crianças sejam consultadas para criação de uma dramaturgia a ser encenada por adultos, um texto que trabalharia a saudade, por exemplo, mas do ponto de vista da criança, e que pudesse ser experimentado, inicialmente, apenas por adultos. Visualizo um texto que seja trabalhado na perspectiva da criatividade fundamental, criando sempre novos contextos para a nossa temática saudade.
Imagino um texto gerado pela definição das crianças, como o dicionário do professor colombiano Javier Naranjo, que passou dez anos coletando as definições de seus alunos de 3 a 10 anos de idade sobre diversas palavras, objetos e sentimentos. Seguem alguns verbetes:

Adulto: pessoa que, em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos).
Ancião: é um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos).
Água: transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos).
Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos).
Céu: de onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)[2]

O diretor francês Jacques Doillon e seus assistentes fizeram algo parecido quando da construção do filme Ponette (1996). Eles perguntaram para várias crianças o que elas pensavam, achavam ou imaginavam sobre a morte. Inspirado nas palavras delas, o diretor escreveu os diálogos do filme Ponette, a história da menina que não aceitava a morte de sua mãe.
Transcrevo alguns desses diálogos que serviram como fonte de inspiração para o roteiro, esses são intercalados entre uma e outra criança e os fragmentos aparecem no documentário Jouer Ponette (2006) da diretora canadense Jeane Créapeau.

PRODUÇÃO: Onde as pessoas vão quando elas morrem?
CRIANÇA 1: Você vai para muito longe, em um país muito, muito, muito,
muito, muito, muito, muito frio.

CRIANÇA 2: [....] La? têm guardiões e... pessoas, carros e caminhões.
CRIANÇA 3: Quando você esta? doente, se você não tomar a vacina, então
você morre. E eu não estou brincando!

PRODUÇÃO: Você conhece alguém que tenha morrido?
CRIANÇA 4: Não... Sim! Granny Marcelle. Ela esta? quase morta.
PRODUÇÃO: E por que ela esta? “quase” morta?

CRIANÇA 4: Porque ela e? muito velha.

Esse mecanismo de utilizar as crianças como conselheiras foi utilizado para construir um roteiro, protagonizado por uma menina de 4 anos de idade, que pudesse se aproximar do pensamento delas. O mecanismo da consulta foi importante para não se criar uma personagem de 4 anos que não pensasse nada daquilo que o filme propunha.
Vale ressaltar que essa consulta não precisa ser apenas do ponto de vista dramatúrgico, ela pode ser do ponto de vista da criação de cenas. Determinada temática pode ser posta para algumas crianças improvisarem, por meio de jogos, e aquele material servir de inspiração para a criação de uma cena, que pode ser realizada por adultos posteriormente. Assim, se bem conduzido o processo, podemos ter cenas/materiais que foram geradas a partir de uma nova perspectiva. A perspectiva da criança que costuma nos mostrar ideias inusitadas, imprevisíveis, lúdicas e cômicas, muitas vezes.
Não se trata apenas de pedir a opinião das crianças, no sentido de: se gostaram ou não do espetáculo ou do filme. Isso seria reduzir muito o papel de conselheiro de uma criança em uma produção artística. Mas seria de consultá-las para saber o que pensam sobre o amor, os encontros e desencontros da vida, as traições, a generosidade ou qualquer outra temática que se esteja sendo trabalhada em um processo criativo adulto. Essa consulta pode desencadear novos desdobramentos que podem ser surpreendentes.
Há algo dito por Ariane Mnouchkine, diretora do Théâtre du Soleil, à Fabianne Pascaud, que sempre me intrigou. Na ocasião, ela disse: “O teatro tem a capacidade de contar tudo! Somos nós que nem sempre sabemos como fazê-lo” (2007, p. 16, tradução minha). Minha tese é de que as crianças podem nos ajudar a contar aquilo que temos dificuldades, seja pela nossa forma racional de vermos o mundo, seja pela dificuldade que temos em manter o nosso potencial criativo, por meio dos bloqueios emocionais que fomos criando ao longo dos anos, ou por simplesmente não conseguirmos.

[1]: Disponível em: www.youtube.com/watch?v=f0tEcxLDDd4. Acesso em: 1º set. 2015.
[2]: Disponível em: catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/dicionario-feito-por-criancas-revela-a-adultos-um-mundo-que-ja-esqueceram. Acesso em: 5 fev. 2015.

REFERÊNCIAS
CRUVINEL, T. Criança em cena: análise da atuação e de processos criativos com crianças-atores. Curitiba: Editora CRV, 2015.
DESGRANGES, F. A pedagogia do espectador. São Paulo: Hucitec, 2010.
GOSWAMI, A. Criatividade para o século 21: uma visão quântica para a expansão do potencial criativo. São Paulo: Aleph, 2012.
JOUER PONETTE. Direção de Jeanne Crépeau, 2006. Canadá: Box Film. 1 filme (90 minutos), sonoro, color. NTSC.
KOUDELA, I. Brecht: um jogo de aprendizagem. São Paulo: Perspectiva, 2010.
MACHADO, M. A criança é performer. Educação e Realidade, v. 35, p. 115-137, 2010.
MERLEAU-PONTY, M. Psicologia e Pedagogia da criança: curso da Sorbonne 1949-1952. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
PASCAUD, F. Ariane Mnouchkine. Conversaciones con Fabienne Pascaud. Montevideo: Ediciones Trilce, 2007.
PONETTE. Direção de Jacques Doillon, 1996. França: Fox Lorber. 1 filme (97 min.), sonoro, color, NTSC.
ROBINSON, K. O elemento-chave. Rio de Janeiro: Ediouro, 2010.

Professor e pesquisador, leciona no curso de teatro da UAB/UnB. É autor do livro "Criança em cena: Análise da atuação e de processos criativos com crianças-atores" pela Editora CRV (2015).
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