Commedia dell’Arte: a tradição
Por: 
Tiche Vianna
Postado em: 
Fevereiro 4, 2011

A commedia dell’arte, considerada um gênero teatral que surge na Itália em meados do século XVI,  é, no teatro ocidental, o único registro de um teatro de máscaras, codificado, comparável ao teatro oriental como Nô no Japão, Katakali na Índia, entre outros.

Neste tipo de teatro popular, o espetáculo é criado através de um roteiro de intrigas bastante abertas, chamado “canovaccio” (trama larga), que diz quais máscaras fazem aquela história, qual é a relação entre elas (quem é da mesma família, quem são os servos de quem, etc) e traça um caminho, através das relações, para orientar os atores que improvisam as falas e as cenas, que previamente estudadas, vão compor o espetáculo no momento em que é apresentado ao público.

As máscaras aparecem independentes de qualquer história, tendo vida própria e sendo criadas pelos atores, que inspirados na própria vida cotidiana, inventam tipos críticos à realidade social da época em que vivem, com o propósito primeiro de se divertirem e depois, de sobreviverem da própria arte.

As histórias, se resumiam, inicialmente, à relação entre o patrões e servos e posteriormente, com a entrada de mulheres nas companhias de teatro, à histórias de amor e intriga. Os “canovacci” traziam sempre um casal central que queria, a qualquer custo, se casar e diversas intrigas que procuravam separar os jovens enamorados. A trama se resumia a conseguir driblar as intrigas e os intrigueiros para que o amor entre os jovens, prevalecesse.

Se as histórias se repetiam com mais ou menos criatividade, o que fazia deste tipo de espetáculo um fenômeno tão grande a ponto de sobreviver no tempo, quase três séculos, e ser retomado no século XX com uma força tremenda?

As máscaras! O que os espectadores daquele tempo buscavam ver não eram as histórias já tão sabidas, como as novelas que assistimos nos dias de hoje. O que eles buscavam era ver como as coisas iriam acontecer e através de quem e como aquelas máscaras, que ele reconhecia e gostava tanto, iriam resolver seus problemas. Eram as máscaras o que o público ia assistir no teatro daquela época. E era através da máscara que o público entendia o que era teatro. Não existiam outras funções para se fazer aquilo, senão a função do ator, que portava a máscara e era o autor do tipo por ela representado.

As máscaras tradicionais deste gênero teatral, que sobreviveram através dos tempos e chegaram até os dias de hoje encantando as platéias atuais, são arquétipos, ou seja, são caracteres, que contém algo essencial aos seres humanos em diversas e distintas culturas.

É importante, entretanto, entendermos uma distinção entre o que uma máscara tradicional representa e a forma que adquire, como objeto, que será o meio de expressão cênica, através do qual a história será mostrada. Tomemos como exemplo uma máscara bastante famosa: Arlecchino – o servo tolo, ingênuo e tentemos entender o que faz desta máscara um arquétipo e o que nela tornou-se um mito.

Arlecchino é a representação do homem que busca trabalho e tem o próprio corpo como única mercadoria para trocar. Ele sai das montanhas e vai para a cidade que começa a constituir uma nova classe social, a burguesia, oriunda de novas relações econômicas. Este homem não sabe ler, nem escrever, mas é forte e tem que barganhar sua força bruta em troca de casa e comida. Arlecchino é a representação daquele que para comer, tem que trabalhar vendendo a si mesmo. Não eram estes os escravos da antiga Grécia e os servos medievais? Não são estes os pedreiros, lixeiros, faxineiros e tantos outros trabalhadores de nosso tempo, que saem de suas terras à procura de trabalho nas grandes cidades e só podem vender sua força?

Esta figura tão conhecida está presente em diferentes sociedades e em todas elas sua representação é a mesma. O que devemos observar, porém, é que em cada uma destas sociedades, que se organizam de modo distinto, e são culturalmente diversas umas das outras, o jeito de ser de Arlecchino é diferente, ou seja, esta mesma máscara pode ter vários nomes, vários modos de se vestir, andar, falar, de acordo com sua época e sua cultura, mas terá sempre a mesma representação. Trocando em miúdos, o que é arquetípico em Arlecchino é o caráter de um servo tolo, ingênuo, ou de um trabalhador submetido ao poder de seu patrão. Seu nome, suas roupas de trapos ou losangos, a forma de sua máscara e as formas encontradas em desenhos que o retratam, são o mito de Arlecchino, construído naquele tempo, pelos artistas que endossaram esta máscara e pelos espectadores que a viram.

Buscar uma tradição, para construir a partir dela, os caminhos que nos ajudam a criar é cuidarmos de não reproduzirmos um conhecimento que chega até nós, muitas vezes, por diversas interpretações através do tempo.

Nunca saberemos a verdade sobre qualquer passado e devemos nos aventurar a atualizar o que arquetipicamente atravessa o tempo, entretanto, tomando sempre o delicado cuidado de conhecer muito a origem e o desenvolvimento do que já existe, para não cometermos o equívoco de acreditarmos ser os inventores do já inventado.

  

Diretora e pesquisadora teatral do Barracão Teatro – Espaço de Investigação e Criação Teatral.
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