ARTE_INTERVENÇÃO ou CENA_ACONTECIMENTO
Por: 
Denise Pedron
Postado em: 
Junho 2, 2011

Se olharmos com atenção para algumas práticas artísticas contemporâneas, aquelas que tomam a rua como espaço de ação, fica claro que as fronteiras entre as noções de teatro de rua, performance e intervenção urbana, estão cada vez mais atritadas. Trabalhos como os do grupo Teatro que Roda (GO), dos coletivos Obscena (BH), Os Conectores (BH), Paisagens Poéticas (BH); Ambulante (SP) colocam em questionamento o que comumente se entende por teatro de rua, porque instauram uma cena_acontecimento no espaço da cidade. Isso para citar apenas alguns exemplos!

 

Na cena_acontecimento, a cidade aparece como espaço de intervenção e não como lugar para montagem de um palco onde se dá a apresentação planejada. Esses grupos ou coletivos planejam sua ação com maleabilidade suficiente para intervir no espaço da cidade e também para receber influências dele. Não existe (pré)determinação completa como num teatro de palco, por exemplo; o que existe é um planejamento flexível de ocupação do espaço que se adapta e se modifica na medida em que a ação transcorre. A construção de uma cena_acontecimento no espaço da cidade parte não do fato narrado ou encenado em si, mas da relação com o presenciado, com o vivido.

 

Ao mesmo tempo em que se apresenta como um desafio para o ator/atuante, pela dificuldade de intervenção efetiva num espaço já tão repleto de informações, sons e imagens, a rua se configura como um espaço potencial de trabalho. Nesse viés, a rua pode ser vista como um espaço que se constrói tanto pelo imaginário quanto pela vivência cotidiana das pessoas; um espaço, no qual a inserção da arte vem deslocar a lógica do trabalho e do consumo para trazer elementos, sons, imagens, cenas, que possam ressignificá-lo, criando nele rupturas, como pontua em suas pesquisas (e trabalhos artísticos) o Professor André Carreira.

 

No espaço urbano ressignificado, a interação com o público é ampliada. Quem habita cotidianamente a cidade ou passa por ela, começa a fazer parte da cena_acontecimento que contribui para criar, deixando de ser apenas público para ser também atuante. E se o (antes) espectador, (agora) atuante, torna-se sujeito da ação que (se) encena, suas ações interferem e modificam a “encenação”, que se dispõe aberta a esses atravessamentos. E dessa maneira, os momentos e movimentos de ocupação da cidade variam porque se efetivam com e pelos sujeitos (atuantes) que os constroem coletivamente. Sendo assim, esse tipo de trabalho parece evidenciar o papel ativo dos habitantes da cidade e de suas ações, artísticas, sociais ou políticas, na construção do espaço que habitam.

 

O público é aquele que acompanha a cena e transita junto, pelos espaços diversos da cidade; e é também aquele, motorista ou passante, que vê uma imagem inusitada aparecer no coração da cidade, no seu epicentro. O que é isso? É a pergunta que mais se ouve quando se faz uma intervenção ou se acompanha o desenrolar de uma performance na rua. Um estranhamento se revela no espectador, evidenciando a interrupção de seu cotidiano habitual. E essa ruptura na previsibilidade da vida cotidiana abre novos campos de sentido e novas formas de ver e viver o espaço da cidade.

 

Instaurando uma certa desordem no espaço urbano, a arte_intervenção o amplia como espaço potencial. Na cena_acontecimento, a cidade passa a abrigar imagens fantasiosas, como se o imaginário encerrado nas cabeças e bem guardado no inconsciente coletivo viesse à tona.

 

Ao possibilitar a criação e recriação do presente para as pessoas que o vivenciam, a arte altera as relações sociais da cidade, produzindo temporariamente uma zona autônoma, na qual, mais do que nunca, os sujeitos parecem habitar espaços e temporalidades fabricados por eles mesmos, que dependem de suas ações e de seu olhar para se constituir como experiência. A cena_acontecimento se dá, então, no processo de significação e constituição do mundo pelo sujeito que o experiencia.  

 

Está em jogo aqui a produção de alterações performativas no cotidiano da cidade, mais que a encenação de uma peça ou a representação de uma personagem. Na arte_intervenção não existe ensaio porque não existe repetição, não existe representação mimética; a experiência se instaura como realidade a partir da percepção do sujeito. Não é assim na vida? Atores e espectadores são aqui, portanto, sujeitos dispostos a correr riscos, e a (como diz o poeta português Gonçalo Tavares) “andar nesse chão do mundo que a qualquer momento se pode soltar”.

 

 

Links:

 

http://coletivoambulante.blogspot.com/

 

http://obscenica.blogspot.com/

 

http://osconectores.wordpress.com/

 

http://onomedissoerua.wordpress.com/

 

http://teatroqueroda.blogspot.com/

 

 

Livros:

 

BARTHES, Roland. Escritos sobre teatro. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

BEY, Hakim. TAZ. Zona Autônoma Temporária. São Paulo: Conrad, 2001.

 

CARREIRA, André. “Teatro de Invasão. Redefinindo a ordem da cidade.” IN: LIMA, Evelim Furquim Wernek (org). Espaço e Teatro. Do edifício teatral à cidade como palco. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

 

COHEN, Renato. Performance como Linguagem. São Paulo: Perpectiva, 1998.

 

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

 

SAFRA, Gilberto.A face estética do self: Teoria e clínica. São Paulo: Unimarco, 2005.

 

TAVARES, Gonçalo. O homem é tonto ou é mulher. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005.

 

WINNICOTT, Donald. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975.

Artista, professora e pesquisadora. Doutora em Literatura Comparada, pela UFMG, com a tese: "A performatividade na cultura contemporânea".
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